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quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Filmes que você não pode deixar de assistir antes de morrer:







Filmes que você não pode deixar de assistir antes de morrer:


1-      Casablanca
(Casablanca, 1942)


» Direção: Michael Curtiz
» Roteiro: Murray Burnett, Joan Alison, Julius J. Epstein, Philip G. Epstein, Howard Koch
» Gênero: Drama/Romance
» Origem: Estados Unidos
» Duração: 102 minutos

Rick é dono de um famoso bar localizado em Casablanca, no Marrocos Francês, durante a Segunda Guerra Mundial. A cidade é rota de fuga para quem deseja evitar os nazistas, onde passes livres são vendidos por um salgado preço no mercado negro. Neste caótico ambiente, Rick encontra Ilsa, com quem tivera um amor interrompido inesperadamente há algum tempo, em Paris. Vencedor do Oscar de Melhor Filme, Diretor e Roteiro, possui ainda uma das mais belas canções já compostas para um filme, "As Time Goes By".

Algumas coisas foram feitas com a intenção de se tentar captar a eternidade, são grandiosas e grandiloquentes, outras são repetitivas para se criar memória como nos ritos cerimoniais.
Raríssimas alcançam a eternidade quando captam momentos efêmeros.
Casablanca é um desses acontecimentos preciosos por sua raridade, que atingem a eternidade através de uma simples olhar apaixonado entre um homem e uma mulher e uma músiva inolvidável.
Perceba a plenitude do eterno contida num olhar e numa melodia.

Notar especialmente a cena do encontro de Rickk e Ilsa.


terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Uma Balada para Narayama



Fim do século XIX, em meio à pobreza e miséria que causavam guerras e emigração para terras estrangeiras, em algumas regiões do Japão, numa luta dura pela sobrevivência, instituí-se uma tradição amarga : Ao completar 70 anos de idade, os moradores dos humildes vilarejos deveriam subir ao topo da montanha local, uma região sagrada e, como elefantes velhos, deveriam esperar pela hora da própria morte, sozinhos. A partir destes elementos de extrema beleza humana, o mestre Shohei Imamura criou uma obra-prima de valor universal e foi laureada , por unanimidade, com a Palma de Ouro do Festival de Cannes


Filme atualíssimo para uma reflexão sobre a condição dos miseráveis irmãos brasileiros que ainda comem lixo e têm seus idosos abandonados.

Uma Balada para Narayama

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Casa de Areia




                                                                 Casa de Areia

Construímos a casa de nossa vida sobre uma rocha sólida, ou nem tanto, sobre argila cozida ou mesmo madeira que não seja de lei. Ela está ali conosco. Pensamos que habitamos nela como uma ostra ou um caracol, mas é ela que habita em nós.
Vem o vento, não uma tempestade, mas um vento sutil de brisa matutina e vai virando nossa casa em uma desconstrução desconcertante, mais fluída que castelos infantis na praia de nossa infância.
Repentinamente nos damos conta que nós morávamos numa casa de areia. Areia fina que a peneira do tempo filtrou. O que era sólido volatilizou-se na penumbra de uma tarde escondida, o que era certeza nem dúvida deixou. Fosse nossa casa um barco, um barco de areia, certamente náufragos derretidos nos encontraríamos.
Acordamos um belo dia, talvez não tão belo assim, e nosso passado tornou-se frágil, nosso chão desliza e afunda e troca de lugar como num sonho desconexo. Procuramos algo ou alguém que tenha invertido nosso espelho ou consumido nossas linhas das mãos, ou que tenha deixado nosso trem partir antes que a estação estivesse pronta...mas não há ninguém, apenas o vento. Um sopro suave, como um alento de fim de tarde, ou uma luz singela de um crepúsculo banal.
Nossas construções se esvaem sem nos pedir licença. Nossas teias estão rompidas. Nossas redes rotas. Corremos desconcertados em busca dos grãos da terra que foram soprados, com desvario, mas não conseguimos alcançá-los, pois dispersos foram, por lábios invisíveis no seu sopro silencioso.
Nossa casa de areia está desfeita, nossa capela vazia, nosso apelo surdo vagueia a ermo sem escuta. Onde pisar? Por onde caminhar?
O vento que desarruma é o mesmo que reconstrói, é o mesmo que faz novas todas as coisas. O mesmo que transmuta a incerteza da escuridão em dia de sol. Na nossa limitada e poente visão não vemos o vento, muitas vezes nem o percebemos, encantados quedamos com nossas paredes sólidas, nossos cadeados de aço, nossos alicerces de sabão, nossa casca de ostra e o vento passa despercebido entre nossos cabelos e entre as artérias e veias do nosso coração.
Misterioso vento, que é hálito de Deus e que vivifica, prenúncio de água e de florescer. Quando abrirmos as nossas janelas e nossos porões forem arejados por ele, então veremos que nossa casa de areia era na verdade uma pequena jaula, mesmo ornada, mas era uma jaula, que foi dissipada. Nossos projetos, nossas certezas, nossos hábitos contidos, serão grãos, apenas grãos, minúsculos grãos na ampulheta da vida maior.
Resta esperarmos, vendo o doloroso desmonte de nossa casa, silenciosos, a direção para onde o vento sopra, e tentar nos alegrar, simplesmente pelo vento. Consolarmo-nos em saber que não somos donos do vento, nem da casa, nem da areia, nem do mar, nem da luz. Somos feitos deles, mas não somos seus senhores. Sobra-nos confiar que o vento nos levará para o novo, para o insondável, o incomensurável.
Acompanhar atentos a edificação de uma nova morada, e torcer para que nela caibam todos os seres humanos, fraternos, únicos e belos na sua pluralidade e completude, imutáveis na sua dignidade de filhos e filhas de Deus, pois na casa dele há muitas moradas e todos são bem-vindos.

Assuero Gomes



domingo, 4 de dezembro de 2011

A Infantilização do Pediatra






A Infantilização do Pediatra

Antes de falar, escutei. Antes de escrever ouvi. Partilho com vocês. Pois somos um.
A sociedade a partir do século XIX construiu simbolicamente um mundo ideal no qual colocou a criança. Neste mundo não há dor, nem violência. A criança perdia então sua condição de adulto em miniatura e ganhava atenção especial. Neste mundo idílico, não havia trabalho infantil, nem exploração sexual, nem crianças que matavam. Não havia fome nem necessidade. Um mundo assim como num conto de fadas, com castelos e princesas, onde a bruxa seria sempre derrotada e a floresta perigosa desbaratada. Eram as crianças como anjos.
Para proteger nossas crianças, criamos um mundo assim, e lá as colocamos. Mesmo com a desconstrução desse mundo virtual a partir do olhar da psicanálise e da sociologia moderna, a partir do século XX, temos guardado seus ideais no nosso coração e temos saudades dele. O problema que gostaria de refletir é outro, embora ligado visceralmente, como siameses, a esse: além de colocarmos nossas crianças (filhos e pacientes) nesse mundo encantado, nos colocaram lá, também, como pediatras.
A idealização do(a) pediatra pela sociedade e por nós mesmos, enquanto sujeitos sociais, é daquele(a) indivíduo que está acima das necessidades de sobrevivência, aquele(a) que está sempre disponível, aquele(a) que é o(a) bonzinho da classe médica, que nada reclama, que a tudo suporta, que deve se contentar em ser sempre o último da equipe. Interessante que a sociedade em geral e a dos colegas médicos nos vêem como se fôssemos nossos clientes. É patognomônico, por exemplo, como os representantes da indústria farmacêutica nos tratam, desde a linguagem (quase sempre usando as formas diminutivas) até a questão de brindes, como pirulitos, balas, abaixadores de língua, balões... Nas festas da nossa especialidade, desde a decoração até os presentes, muitos são infantis, como num jardim de infância. Nas decisões em nível de grupos ou sociedades ou entidades médicas, os(a) pediatras são relegados a um último plano. Embora sejamos maioria.
Estranho mundo este que nos enredamos.
Nosso comportamento é também, muitas vezes infantil.
Dividimo-nos em pequenos grupos rivais, cada um querendo mostrar um melhor desempenho ou qualificação, como filhos mimados que querem atrair a atenção do pai, numa disputa entre irmãos. Não conseguimos nos unir até mesmo para lutarmos sobre coisas comuns a todos nós, como remuneração e condições de trabalho.
Para nós, basta um jantar em algum restaurante de luxo e alguns afagos públicos, tais como medalhas, placas e elogios. Dói ver e ouvir o discurso de alguns colegas de outras áreas ou mesmo estranhos à classe médica que estão na posição de “patrões” (notem que a raiz da palavra patrão é a mesma de pai), quando dizem estarem “sensibilizados com a pediatria, que se sentem emocionados com tudo que diz respeito à pediatria, que são o melhor grupo dentro de todo sistema, pois nunca causam problemas”, e assim por diante, lembrando aquele velho político que no dia dos professores chega às lágrimas ao lembrar com gratidão sua professorinha das primeiras letras. No entanto esse mesmo político nunca fez o menor gesto concreto para melhorar as condições de salário, de ensino, enfim da vida dos professores. Dói mais ainda ver os(a) colegas felizes, satisfeitos e conformados com seus bonequinhos de plástico na lapela da bata, agraciados com os elogios e sem questionar porque as  suas reivindicações não são atendidas.
A tal ponto chega o nosso alheamento quando se trata de nós mesmos, que em serviços de excelência médica, tanto de ensino como de atendimento ao público, achamos normal um professor, com mestrado e doutorado e dedicação quase exclusiva, receber em torno de 2 mil reais, enquanto que, qualquer executivo em início de carreira sem ao menos um décimo da nossa responsabilidade, ganha em torno de dez mil reais. Que parâmetros são esses que usamos em nós mesmos? Nós estamos nos vendo em espelhos de crianças, como se crianças fôssemos.
Algumas atitudes que tomamos também que são típicas do mundo infantil, é quando, por exemplo, nos rebelamos por pagar impostos oficiais, sendo nossa primeira ação a de querer sair intempestivamente das nossas sociedades ou corporações ou das cooperativas, no entanto, quando alguma instituição camufla estes impostos e mais algumas outras taxas em desconto da nossa produção, aceitamos passivamente. Uma atitude positiva e adulta seria procurar nos inteirar mais profundamente do problema e em assembléia decidirmos o melhor caminho. Lembremos sempre, que somos maioria esmagadora e portanto decisória.
Repito, antes de falar escutei, antes de escrever li. Tudo isso acontece com todos nós em maior ou em menor grau. Somos um.
Há, no entanto, como crescer e nos desvencilhar desse mundo fictício e cruel, porque camufla a realidade e tolhe o crescimento e o desenvolvimento. Logo a nós, que somos mestres no crescimento e desenvolvimento do ser humano.
Reconhecer,Acolher, Organizar.
São os três caminhos básicos para caminharmos no amadurecimento.
O primeiro grande passo é reconhecer a situação; talvez o mais difícil, pois o olhar no espelho com espírito crítico, nos mostra muitas vezes o que não queremos ver. Desconstruir nossa imagem é um processo doloroso, embora que o reconstruir nos fortaleça de maneira gratificante. Não há ganho sem perda, especialmente no processo de crescimento. Assim como navegar é preciso, navegar em terra, que é caminhar, é preciso.
Creio que o reconhecimento da nossa situação, apesar de doloroso e difícil, não é tão complicado, pois é tão gritante, que diria como um dos profetas: “Se eu calar, essas pedras gritarão”.
O segundo passo, mais profundo e mais denso que o primeiro, é o acolher.
Fomos formados no sentido de sentirmo-nos como autônomos, senhores da vida e da morte, cuja palavra é a última. Ilhas de conhecimento e sabedoria. Como que filhos(a) únicos. Cada um de nós ou cada serviço a que pertencemos, ou mesmo grupo de trabalho ou pesquisa ou ensino, se sente como ilhas de excelência. Precisamos deixar de pensar como ilhas, segundo o texto que se segue:
Fôssemos ilhas mergulhadas no imenso oceano da vida, por mais belas e vivas que fôssemos, seríamos ilhas apenas. Em nossa porção de terra nascessem as mais raras flores de perfumes inigualáveis, e as beijassem as borboletas e os pássaros, seríamos ainda assim, pequenas ilhas.
Conseguíssemos galgar com o nosso trabalho, os mais altos postos, como nas montanhas dessa ilha, ou mesmo construir palácios e templos com nosso esforço individual, ou mesmo decifrar as letras de antigos documentos, ou penetrar no conhecimento de todas as matérias, com o nosso estudo solitário, mesmo assim seríamos como ilhas.
Existisse um meio de, isolando-nos do mundo, elevar nossa capacidade de trabalho a perto do infinito, ou mesmo nosso estudo nos tornasse cultos ao extremo, seríamos apenas ilhas, perdidas no imenso oceano, que é a vida.
Fôssemos poços ou lagos profundos onde habitasse quase toda espécie de vida, jamais seríamos fonte, jamais nos encantaria o mar. No entanto, unidos, seremos rios, correntes, cascatas, cachoeiras, continentes, seremos mar, veremos a Deus, porque, na verdade última das coisas do universo, todos dependem de todos.
Acolher cada pediatra como a um irmão ou irmã querida, que estava ausente e que agora retorna à casa. Precisamos nos acolher e nos cuidar um do outro.
Chegássemos nós a essa etapa da estrada, nosso percurso estaria quase findo. O horizonte estaria ali à nossa mão, como um fruto maduro à espera da colheita. Restaria apenas o organizar.
Organizar é ter o dom de se tornar um, na riqueza da pluralidade. Cada qual com seus milhares de dons e suas fraquezas, sua liberdade, sua voz, seu sentir, respeitados fraternalmente, buscando o bem comum. Aí então teríamos nos tornado adultos(a), sem perder a ternura das crianças.
Gostaria de terminar, se é que se termina algum dia, com a lembrança de uma parábola chinesa que li certa vez transcrita no livro de um  amigo, Frei Carlos Mesters:
Levado o peregrino a conhecer o inferno, ele viu um enorme monte de arroz, cozido, branquinho, saboroso, e ao redor dele muitas pessoas famintas sentadas tentando comer com os palitinhos que os orientais usam para comer (hashi) e não conseguiam, pois eles eram muito compridos e ao tentarem levar o arroz à boca ele caía. Logo em seguida o mesmo peregrino foi levado ao paraíso.
No paraíso havia também o monte de arroz, com uma multidão sentada, se alimentando tranqüilamente, com os mesmos hashi. A diferença era que um levava a comida à boca do outro.

Assuero Gomes.
   

 


sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Hipócrates maltrapilho, e amordaçado



Hipócrates maltrapilho, e amordaçado

A situação dos médicos está insustentável. Salvo as exceções dos super-especialistas que se dedicam à tecnologia de ponta, a imensa maioria sobrevive à custa de míseros salários públicos, com uma sobrecarga desumana, recebendo sobre si injustamente toda a revolta da população usuária de um sistema único de saúde falido, e aqueles colegas que se aventuram a manter um consultório que tem o nome fantasia de “particular” sofrem uma terrível carga tributária, além de onerosas taxas e impostos e contribuições obrigatórias para o exercício da profissão, para receber consultas defasadas a preços irrisórios de planos de saúde, quase sempre meses depois de terem sido realizadas, e ainda com as famigeradas glosas.
O maior sintoma desta situação é a falta de médicos em algumas especialidades vitais, tais como a pediatria. A situação está tão ruim que muitos profissionais que ingressam em serviço público através de concurso, desistem do emprego. Faltam também profissionais para plantões até na rede privada.
Agravando tudo isso, se inaugura uma nova faculdade de medicina em cada esquina, e ainda se quer abrir este combalido mercado de trabalho a médicos cubanos sem a devida validação de seus diplomas de origem.
Basta!
Houve um tempo, não muito distante, em que os discípulos de Hipócrates faziam ouvir sua voz, gerando respeito e produzindo dignidade para a classe. Além da nossa proletarização, temos que ter cuidado com uma nova ordem (desordem) de advogados de porta de cadeia (digo de hospitais), a serviço do lucro sobre a desgraça alheia, que como abutres sobrevoam as feridas do sistema, para abocanhar dinheiro dos infortúnios de uma situação insustentável. Repito, a sobrecarga de trabalho desumana, fazendo com que colegas trabalhem em vários plantões na semana ou atendam em vários serviços, sem descanso nem tempo para estudar continuamente, fatalmente gerará situações de risco para o paciente e para o médico.
Basta!
Expostos à mídia diariamente, colegas há que se dedicam a minorar o sofrimento dos pacientes, chegando ao cúmulo de atenderem mais de cem pessoas por dia em locais sem condições nenhuma. Pacientes internados recebendo medicação venosa em cadeiras por falta de leitos. Hospitais fechando. Planos de saúde se expandindo à custa do nosso sacrifício e de uma propaganda enganosa junto a uma população carente (se não assassinasse nossa amada língua pátria, ousaria dizer “carentíssima”) que procura desesperada uma assistência médica digna da condição humana.
Basta!
Vejo o médico, a médica, como Hipócrates. Atualmente não como um Hipócrates que tinha todo o tempo do mundo para ouvir e escutar seus pacientes, um Hipócrates que não se necessitava se preocupar como se sustentar nem a seus filhos, nem com as contas a pagar no final do mês. Vejo-nos hoje como um Hipócrates que se tornou um Lázaro. Os dois Lázaros, o da parábola, maltrapilho, que chegava a pedir as migalhas do rico para comer embaixo de sua mesa e o outro, amigo particular de Jesus, que estava enfaixado e amordaçado, no túmulo em Betânia, morto, ao qual o Senhor disse: “Vem!”. Retirem suas faixas para que se levante e ande com as próprias pernas.
Está na hora de nos levantar. Está na hora de sairmos do túmulo que o sistema nos preparou e nos colocou. Acordem as lideranças! Façam ouvir a voz de uma das classes mais dignas deste país, cujo reconhecimento da população é nosso maior aval. Basta de exploração do trabalho médico e de um sistema de saúde inacessível à população. Basta de palavras e discursos, que por mais belos que sejam, já saturam nossa paciência e esmorecem nossa esperança.

Assuero Gomes



quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Quem cuidará de Pedrinho?


Quem cuidará de Pedrinho?

Dia 27 de julho, comemoramos o dia do pediatra, a cada ano. Uma reflexão sobre o mundo deste profissional, suas crianças e os pais delas, antes que elas naveguem para sempre no mundo dos adultos, antes que as famílias, como as concebemos, se dissolvam no torvelinho da vida moderna, antes que se forem os avós e já não existam mais avós.
Com os casais se separando prematuramente, se é que se há tempo maduro para se separar, os filhos estão sendo criados pelos avós. Os casais, que sem vocação alguma para o matrimônio, geram filhos e os colocam no mundo, numa visão egocêntrica, nada mais suportam, nada mais relevam em favor do bem comum da vida do casal, nada mais perdoam um do outro, sempre, sempre estão se separando para tentarem novas aventuras, com novos parceiros, e seus filhos deixam aos cuidados dos avós, que depois de toda uma vida dedicada a cuidar dos filhos, passam a cuidar dos netos. Essa geração ainda tem avós. Temo o que será para os filhos desses filhos, que terão as suas referências familiares mais fragmentadas ainda. Não mais sentarão às mesas aos domingos junto às suas famílias, primos e tios serão estranhos, e os avós que terão as suas partidas precoces como pais de duas gerações. Quem cuidará de Pedrinho?
Um dos grandes referenciais para as crianças, além de seus pais e avós, somos nós, seus pediatras. Arredios no início, desenvolvem conosco um relacionamento de confiança e admiração, chegando a pedir, ao menor contratempo ou arranhão, que os levem até nós. Não é à toa que a grande aspiração profissional das crianças, durante uma das fases de sua vida, é ser médico e ser pediatra, igual “ao tio”.
Um fenômeno triste e também desagregador para as referências pessoais formativas das crianças, é a falta de interesse dos jovens médicos por esta especialidade e muito menos em manter um consultório privado. As causas são óbvias e cruéis.
Dentre as especialidades médicas, a de menor remuneração é sem dúvida alguma a pediatria. Acresce-se a isso, a infame carga tributária para se manter um consultório, as enormes despesas com aluguel, energia, telefone, funcionários, obrigações sociais, condomínio. Os convênios com seu mísero valor de consulta, e ainda a ANS exigindo mudança de formulários, papéis e mais papéis, burocracia sem fim, onerando mais ainda nossa atividade. Querem taxar nossas balanças de pesar crianças como se de mercadoria de supermercado ou feira livre fossem. Exigem agora que compremos computador, com softwares caros, impressoras e demais acessórios além de termos de qualificar em informática nossas funcionárias, tudo para se obter um opressivo controle sobre nós e nossos pacientes, e para facilitar a vida das operadoras de saúde e do fisco.
A maioria dos colegas está fechando seus consultórios, muitos indo trabalhar em ambulatórios no serviço público e outros em plantões de hospitais. Está chegando ao fim o pediatra que acompanhava Pedrinho desde seus primeiros dias neste mundo de Deus, na sala de parto, seu primeiro choro, suas primeiras quedas, suas primeiras lágrimas, seu primeiro sorriso, a preparação para seu primeiro dia de aula, suas gripes e peculiaridades, seus primeiros dentes, o início de sua puberdade, que o aconselhava, que o tinha como a um filho. Hoje ele é atendido por “estranhos” de plantão em plantão.
Pedrinho está sem referências. Seus pais já não se falam. O pai está noutro estado com uma nova mulher e outros filhos. Sua mãe trabalhando em dois empregos e fazendo um curso à noite. Pedrinho passa o dia na escola, à noite, sonolento o levam para casa onde uma babá o espera para pô-lo na cama. Seu pediatra fechou o consultório. Quem cuidará de Pedrinho?

Assuero Gomes