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quinta-feira, 29 de março de 2012






Habemus Papam




Um excelente filme que recomendo pela sutileza e delicadeza demosntrada na condução da trama, o conflito psicológico e institucional, a questão da fé e da psicoanálise, a afetividade humana e os compromissos sociais.
Crise existencial.

Em Recife está no cinema da Fundação Joaquim Nabuco.

terça-feira, 27 de março de 2012

Comblin, um ano sem...

Amiga(o),



Comunico que hoje celebramos o primeiro aniversário da morte de José Comblin. Um livro sobre o teólogo está sendo lançado hoje e em anexo mando uma mensagem sobre o assunto. José Comblin é sem dúvida um dos maiores teólogos da época 1960-2000 na América latina. Atuou durante muitos anos ao lado de teólogos como Gustavo Gutiérrez, Jon Sobrino, Juan Luis Segundo, o filósofo Enrique Dussel, Segundo Galilea, Leonardo Boff, o biblista Carlos Mesters e assessorou bispos como Helder Câmara, Leônidas Proaño (Ecuador), José Maria Pires (que estará presente num dos lançamentos do livro, no dia 27 de abril, em Belo Horizonte), Manuel Larrain (Chile) e Luiz Cappio (Barra, Bahia). Hoje pela tarde haverá uma rememoração em Salvador, no Recanto da Transfiguração, no local onde mestre Comblin faleceu. Estão programadas para hoje diversas outras comemorações: na Paraíba haverá um seminário na Universidade Federal de João Pessoa e uma celebração em Santa Fé (Arara), onde o padre está sepultado. Em Santiago de Chile haverá igualmente uma eucaristia, assim como em Barra (Bahia), onde o teólogo morou nos dois últimos anos de sua vida.



Atenciosamente,



Eduardo Hoornaert

Quando partiu escrevi esse artigo ao mestre:








A noite é suave, já podes desamarrar tuas sandálias e descansar teus pés andarilhos, peregrinos, pois a noite veio, Comblin. Suave e mansa a noite veio. Não amedrontou, nem assustou, ela veio serena ao teu encontro, como a brisa no Horeb, conversando contigo como a brisa e Elias.
Tuas sandálias estão cheias de pó. Das estradas do desterro, das estradas dos sertões, de Talca terra chilena, de Riobamba no Equador, dos nordestinos destinos empoeirados de caminhar, das vilas e acampamentos.
Já podes desamarrar teu cinto que te cingiu, liberar teus rins ao repouso, pois agora vais para onde não querias ir, pois por ti, ficarias mais um pouco entre os romeiros peregrinos. Desata teu cinto, desata, pois nada de prende mais entre os homens e as mulheres que não seja o Amor.
Encosta teu cajado junto aos teus livros. Já não precisarás dele, pois teus pés estão pisando nos verdes e seguros campos do Senhor. Enfrentaste com tua lucidez e tua palavra as fardas e baionetas armadas, agora já não há botas nem coturnos, nem arames farpados, nem grades nem opressão, pois o Vento campeia livre nos campos do Pastor.
A noite é suave e belas são as estrelas. Mais belas ainda o são no céu sertão desse imenso arraial chamado Brasil onde escolheste plantar teu coração. No chão de Ibiapina, de Conselheiro, de Cícero, de Austregésilo e de Helder, ah! Quanta sacralidade nesta terra ressequida, quanto adubo misterioso que a torna fértil sem se mostrar, e faz brotar vida das pedras e vocações libertárias onde grassa o espinho do xique-xique e a cerca do egoísmo.
A noite é suave e doces são os vagalumes que trazem nas mãos dos romeiros a luz roubada das estrelas, para alumiar em pequenas candeias, o caminho que vai sendo construído ao teu redor. Podes ainda ouvir os lamentos e os benditos dessas almas que agora choram tua partida, como órfãos de um pai? Podes ainda escutar-lhes as lágrimas, rutilantes, escorrendo pelos caminhos tortuosos da pele marcada pelo sol cáustico e pela dura labuta diária?
Já não tens mais sede de água, nem sede de saber, nem sede de amar, pois estás na Fonte das fontes. Não precisas mais aprender, apenas contemplar a plêiade de irmãos e irmãs que arrebanhaste, diretamente na face de cada um, transfiguradas e belas pela realidade da presença da face do Cristo.
A noite é suave, mas o dia é claro, Comblin. Dizem que os anjos podem escutar a alvorada. Talvez seja esta uma das poucas vantagens que têm sobre nós, mas os poetas e os cegos também o podem, talvez tu já soubesses disso, os teólogos podem ser como os poetas e os cegos que enxergam horizontes entre uma palavra e outra. O teólogo é um poeta de Deus.
A noite é suave Comblin, mas o dia é claro. Deixaste a nossa noite para nos esperar no Dia. Como sempre, nos emprestando luz onde só enxergamos escuridão.
Agora meu amigo e meu irmão, antes que nos sintamos órfãos, antes que nossa lágrima de saudade escorra para esta terra seca, antes que nossos pés ousem descansar, faze uma prece e acende mais uma luz para nós, essa luz do Dia, pois embora a noite possa ser suave o dia é claro e só podemos caminhar enquanto há luz.

Assuero Gomes
Cristão católico leigo da Igreja de Olinda e Recife 


segunda-feira, 26 de março de 2012

Por um pedaço de Pão




Por um pedaço de pão



Por um pedaço de pão crianças morrem. Por um pedaço de pão, um pedaço apenas, uma cidade se consome, doutores dão seu voto e sacerdotes se afogam em crise, por um pedaço de pão, eu vi.

Vi um ancião se iluminar, no seu pedido esmoler, atendido num pedaço de pão.Por um pedaço de pão, vi um pai vendendo a filha e uma nação invadir a outra. Vi entre escombros, a vida ressurgir, por causa de um pedaço de pão. Vi um leproso desnudar a Francisco em troca de um pedaço de pão, e por um pedaço do pedaço deste pão eu vivo.

Por um pedaço de pão se constrói uma comunidade, uma cidade. Do sonho de um pedaço de pão partilhado, vi homens e mulheres, escravos, beberem da liberdade para sempre, por um pedaço de pão, sonharem justiça.

Vi palácios e templos saqueados por um pedaço de pão, ruírem sobre si mesmos. Vi cardeais se escondendo por um pedaço de pão e vi também retirantes irmãos e irmãs nordestinas como eu, em carcaças humanas, caírem ao longo da estrada, por um pedaço de pão.

Vi toda a poesia que há no mundo num pedaço de pão. Vi todo o ódio que há no mundo na falta de um pedaço de pão.

Vi uma refeição de treze pessoas, nela um pedaço de pão e um copo de vinho, e um traidor molhando este pão dividido com o próprio Pão.

Vi a salvação do mundo num pedaço de pão, e a harmonia do cosmos nele habitar escondida. Vi um ser humano transformado em cão faminto, rastejando e mordendo seu semelhante por causa de um pedaço de pão. Vi movimentos e estruturas, construções e demolições, por um pedaço de pão. Vi uma mulher dar-se por um pedaço de pão e seres humanos em lixões escavarem com suas mãos à procura de um pedaço de pão. Ouvi a música dos anjos e de toda a corte celestial num pedaço de pão. Vi um pedaço de pão ser devorado por um imperador hostil, e engasgado, quase morrer por um pedaço de pão.

Vi um revolucionário, percorrer na sua motocicleta, a latina América, plantando pedaços de pães nos campos oprimidos e sonhar o pão na mesa de todos.

Vi profetas cansados se recuperarem por um pedaço de pão e retomarem sua profecia. Vi rainhas guilhotinadas por um pedaço de pão.

Vi um jovem Deus morrer pregado no madeiro e afogado em seu próprio sangue por um pedaço de pão. Vi um império esfacelado por causa de um pedaço de pão. Vi a morte que ceifa vidas onde não há pão repartido.

Vi um jovem Deus ressuscitar num pedaço de pão, e a morte ser vencida, por um pedaço de pão.

Quando nada mais restar, restará guardado no último farnel, na última mochila, no último prato, na última oração, na canção da despedida, no aceno de adeus, restará um pedaço de pão; nele a história de uma vida preservada, nele a salvação da humanidade possibilitada.

Vivi a esperança de ver tanques e baionetas, metralhadoras e algemas, derretidas e refundidas em arados, transformando ossos em pães, sangue em vinho.

Vi um jovem Deus se transubstanciando, sem limites, num pedaço de pão e se ofertando em amor concreto e sólido, como num pedaço de pão, para você e para mim.

Uma Páscoa, partilhada em ternura e pão para todos e todas!



Assuero Gomes

domingo, 25 de março de 2012

Pessach, Páscoa


Uma belíssima apresentação artística que envolve teatro, dança e música.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Lisboa, Lisbon, oh Luz Boa!

Lisboa

Jamais esquecerei o primeiro encanto que me fizeste, a primeira lua que deste, oh bela cidade!

Deixei um pedaço do meu coração em ti, e agora retornará para ti um pedaço do meu corpo e muito do meu sangue.















domingo, 18 de março de 2012

Libertando Jesus das igrejas



Libertando Jesus das igrejas



Talvez os pregos que O pregaram na cruz não tenham imobilizado tanto quanto as instituições O imobilizam hoje. Os que O prenderam na cruz foram perdoados, pois não sabiam o que estavam fazendo, talvez os que O prendem nas igrejas saibam mais, dentro de suas limitações, o que fazem.

Os pregos institucionais, embora invisíveis, imobilizam muito mais que os de ferro, pois estes  O aprisionaram por algumas poucas e terríveis horas, os outros pregos, no entanto, O aprisionam por mais de mil e setecentos anos, e cada vez mais, O impedem de caminhar livre pelas estradas do mundo, para que possa, vestindo as roupas de cada cultura, comendo a comida de cada povo, morando onde o povo está, falando sua língua, se comunicando plenamente e expondo sua boa notícia, uma notícia de libertação, possa reavivar a esperança concreta da realização do reino.

Preso na instituição Jesus geme. Talvez clame, mas a instituição grita, brada e berra mais alto, em seu nome, mas não anuncia sua boa nova, não avisa aos necessitados que o Reino já chegou. O prisioneiro de cravos de ouro e resplendor de prata, sob o jugo de leis e interditos, proibições e ritos de tradições arcaicas, dogmas imutáveis e penitências impostas aos outros, pede para se libertar.

Sociedades religiosas medievais, conventos vazios, prédios imensos e sombrios onde jazem as ‘conquistas’ do passado, fazem sombra aos pobres que sobrevivem nas sombras da civilização.

Já passa da hora de se libertar o Cristo das igrejas, de todas as dominações e confissões, pois lá fora, na planície é onde a vida acontece e onde as respostas são esperadas pelos presos, doentes, coxos, cegos, surdos, emigrantes clandestinos, é lá que os famintos esperam pelo prato e a certeza de não mais ter fome e os sedentos de verem jorrar água em abundância.

O novo há que se mostrar e mudar a vida do mundo velho e cansado, para que os sinais de morte se mudem em vida e vida em abundância.

Precisamos urgentemente retirar a pedra da prisão, assim como foi removida a pedra do túmulo na Páscoa, libertar dos grilhões como Pedro foi libertado, fazer internamente, nas instituições, o que o Senhor fez com seu amigo Lázaro, desatá-lo das amarras e chamá-lo para fora, para que ande com seus próprios pés.

A boa nova de Jesus sempre foi um motivo e razão de esperança para os desesperados. O mundo, mais que nunca não tem respostas para eles. A Palavra precisa ser anunciada, além, muito além das paredes dos templos e de suas grades, precisa romper as barreiras dos preconceitos e limites culturais.

É preciso lhe arrancar os pregos, calçar-lhe as sandálias, vesti-lo com as cores dos povos, para que nos aponte os caminhos coletivos de solidariedade e partilha.

 Libertar Jesus das igrejas é ‘descrucificar’ e libertar os pobres em cada canto de deserto e tornar em jardim suas vidas semeadas na misericórdia.



Assuero Gomes


Cristão católico leigo da

Arquidiocese de Olinda e Recife


sexta-feira, 16 de março de 2012

O Médico






O Médico



O médico há de ser tão hábil com as palavras quanto com o silêncio. Ser prudente como uma mãe que carrega seus filhos no colo ao atravessar uma larga avenida estrangeira. Destreza e perícia devem ser os fios condutores de sua arte e de seu ofício, e lembrar sempre que a palavra corta mais que o bisturi, drena e limpa mais feridas que qualquer ato cirúrgico, e que esta mesma palavra se mal aplicada, pode lesionar ou amputar uma alma para sempre, irremediavelmente.

O médico jamais recebe comissões por seu trabalho, nem mesmo salário, nem abonos ou gratificações, pois sua arte não tem preço. Concede o direito de retribuição a título de honra (honorário), pois é digno e justo. É claro e límpido nas suas ações e condutas, frente à sua família, ao paciente e aos seus familiares, estendendo seu comportamento à toda sociedade. Deve ser suave no trato às pessoas, diligente e equânime. Atencioso e com postura ereta em todo lugar no qual se apresenta, exercendo ou não seu trabalho, pois ele é espelho no qual se reflete a esperança das pessoas, inspiração e aspiração para os jovens, emanando da sua pessoa, conceitos que serão aspergidos por sobre toda classe médica.

Há que ser culto sem ser esnobe, e ter a consciência que, por mais hábil que seja, mais informado, mais competente, será apenas um ser humano ajudando o outro na sua fragilidade. Curar, amenizar o sofrimento, consolar, são atributos de Deus, do qual somos infiéis depositários de uma graça que não merecemos. Um dia o médico, sua esposa ou seu filho estarão recebendo os cuidados de outro médico, isso faz parte da inexorabilidade da vida; por isso, jamais, em momento algum, deve receber alguma compensação por atender outro médico, isso, por si só já é uma honra. Participará com determinação e vontade inquebrantável de todas as lutas justas da sua classe.

Há que ter poesia no seu espírito, pois de que outra maneira suportaria o sofrimento do outro?  Quanto à fé, não se pode compreender um ser humano que vai a um lugar de onde os outros fogem, os umbrais da morte, o vale da dor e das lágrimas, o misterioso limite do suportável, sem ter fé. A fé será seu único alimento em algumas situações e sem ela, certamente o médico perecerá, a não ser que não seja humano, então não seria médico.

Deve levar sempre consigo um lenço limpo, e não idolatrar a tecnologia sedutora, não fumar e se trajar de forma coerente com a pessoa que é. Jamais se embriagar, respeitar as leis de seu coração e o limite de seu corpo. Lembrar que o país no qual nasceu é a extensão de seu corpo, portanto você está inserido carnalmente nele. O médico não é uma pessoa comum. É um formador de opinião e é o ser humano que se lhe é permitido chegar mais perto da alma do outro. O sacerdote, no seu ofício sagrado, chega perto desta íntima e delicada relação com outro, no entanto, dificilmente um fiel se mostrará desnudo a um sacerdote, e muito menos permitirá que este lhe perscrute suas mucosas e suas vísceras.

O médico não decidirá sobre sua conduta, pressionado por quem quer seja, nem por forças ocultas, nem religiosas, nem econômicas, nem políticas. Respirará e transpirará Ética todos os dias de sua vida sobre a Terra, e terá uma atenção especial para com os pobres no seu momento de dor, sempre, pois serão eles que o receberão, quando as glórias humanas tiverem passado e das vaidades restarem apenas umas poucas palavras nalguma lápide esquecida varrida pelo vento do tempo e do esquecimento.



Assuero Gomes


Médico e escritor