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quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Depois da festa

Depois da festa...

Depois que a festa acabou, assim como a banda de Chico Buarque, tudo tomou seu lugar. A não ser pela ressaca, os pobres continuaram a ser explorados, os mesmos ladrões de sempre a roubar, a cantora sem voz tentava explicar a conta, uma vez que a luz não é de graça, nem a banda, nem o som.
Rastros da noite dos desesperados ficaram pelo chão. Os corações mais pesados, a alma mais angustiada, o vizinho mais truculento.
O dia a dia consumiu em poucas horas aquele sonho de poder e de melhoria. Tudo como dantes no reino de Abrantes, como dizia um dito popular antigo.

No posto de saúde as atendentes de enfermagem recebiam os feridos das ambulâncias precárias, dos maqueiros sonolentos. O posto à deriva faltando tudo. Por cima do ambulatório, na sala de atendimento, uma imagem de Maria parecia acolher aqueles filhos, mais uma vez. Silenciosa e meiga, como se visse em cada um seu próprio filho.

Assuero Gomes
assuerogomes@terra.com.br

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

A Festa dos desesperados III

A Festa dos desesperados III

O pessoal foi se achegando ao redor do cabaré. Ouviram o som e a notícia da cachaça de graça. Os chefes chamaram o dono do cabaré e prometendo que iam pagar depois, penduraram a conta e mandaram distribuir mesmo tudo de graça. A polícia ficou para depois. Ganharam mais um tempo e foram saindo de fininho.
Os desesperados vararam a madrugada ao som do pagode, do frevo e do axé. Continuou tudo em carnaval. A conta vai para eles mesmos, depois.
O problema é a ressaca e no dia seguinte ter que trabalhar para pagar a conta da festa no grande cabaré.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

A festa dos desesperados II

A festa dos desesperados II

E o bolero, ao som deste a festa vai desenrolando. A polícia cerca já com algemas nas mãos, quer adentrar no recinto. A cantora rouca e desafinada tenta alçar a voz, não consegue. A orquestra latina ensaia uma quadrilha junina, o chefe, já não se aguentando de pé, solta impropérios.
Fingem que cantam, que se divertem, que são felizes. A luz vermelha piscando nos olhos confundem as mentes bêbadas, ora pensam que é a sirene do camburão, ou da ambulância ou da gang mesmo.
A cachaça e o rum já nem embriagam mais, as 'meninas' já não dançam nem encantam, uma festa de fim de feira.
Dali sairão para onde?

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

A festa dos desesperados




A festa dos desesperados

Como quem estivesse em iminência de ser preso ou degolado, ou desempregado, juntou-se o grupo para uma festa. Uma grande festa para mostrar normalidade. Dessas festas de encher os olhos e ser comentada pelo bairro, e encher os salões de manicure com conversas e mais conversas.
Prostitutas de luxo e outras até banais, luz vermelha como nos melhores cabarés de Jorge Amado, palco vermelho, olhos vermelhos. Risos frouxos, gargalhadas como anteparos do medo. Bandeirolas vermelhas.
Uma cantora, como uma travesti, destoava entre roucas palavras, outras vezes amaciava em falsete. Tudo era falso, até o brilho da noite tenebrosa.
Chamem os incautos, os bêbados, as catitas, os que acham que essa luz é melhor que o amanhã. Comam, bebam, requebrem, cantem, pois é o melhor que conseguiram e amanhã podem perder.
A orquestra de doze tocava suas músicas caribenhas e a rouca, entre caras e bocas, se esforçava para agradar.
A festa dos desesperados espichava a noite para que não acabasse. Cachaça para as mesas mais afastadas da diretoria, rum para a mais perto, whisky se chegando e na mesa central puro malte importado.
Ao som desse bolero...

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Aos sacerdotes, por Adriana Morais




Aos sacerdotes

Em um mundo tão conturbado, onde acontecimentos diários nos fazem pensar que não há mais solução, a fé muitas vezes fica abalada. Nesse momento busca-se Deus, contudo, eu me pergunto se as pessoas encontrarão esse alento, essa fonte renovadora da fé em nossas igrejas. Tenho receio dos rumos que a igreja segue enquanto seus representantes pensam e agem de forma totalmente distorcida do que Jesus Cristo nos pede. Pensando nisso, resolvo escrever a vocês padres e seminaristas.
Senhores sacerdotes, seres humanos como todos os outros filhos de Deus, saibam que quando entramos em uma igreja e participamos de uma celebração, queremos e precisamos nos sentir acolhidos, afinal, estamos na casa de Deus e Ele é amor. Peço o favor de não nos tratarem (“leigos”) como meros espectadores de suas homilias, não nos tratem como se não soubéssemos ou pudéssemos fazer nada pela igreja, pelo Reino. Não nos impeçam de atuar na construção deste Reino;
Não se coloquem acima dos outros como se fossem melhores ou vão caminhar sozinhos, andem lado a lado com o povo, assim como Jesus Cristo o fez.




Busquem ser instrumento verdadeiro de vida, que suas palavras sejam expressão fiel de seus atos, não precisam ser santos, mas que vivam conforme aquilo que vocês professam durante a missa, pois, o Evangelho serve de orientação para nós e para vocês também.
Não virem as costas para o sofrimento das pessoas, não façam das angústias, medos e dúvidas delas uma forma de vocês mudarem de vida. Pelo contrário, acolham o sofrer do povo como sendo de vocês, lutem, busquem, acreditem e estimulem. Pensem sempre que Deus se faz presente na pessoa do próximo, então procurem sempre Jesus naqueles que se aproximam e ou convivem ao seu redor.
Lembrem sempre que vocês são referência para todos aqueles e aquelas que acreditam em Deus, que acreditam e querem um mundo melhor. Então, que o trabalho de vocês seja de orientar e caminhar como povo de Deus, do qual vocês também fazem parte, para que o Reino aconteça entre nós. Não façam de suas homilias instrumento de vingança e separação, mas que sejam momentos de fazer brotar a consciência, o amor, o respeito, a fé. Que seus ensinamentos sejam inspirados por nosso Senhor Jesus Cristo, afinal, é a Ele que vocês “representam”.
Lembrem que o principal é Jesus Cristo, permitam que Ele apareça e não busquem, à custa d´Ele, se promover. Vocês sabem que isso é errado.
Não vejam a igreja apenas como um templo de pedras, que ela seja mais ampla, que ela seja refletida em cada membro que dela participa e, com isso, chegue até aqueles que não acharam o caminho.
Precisamos de sacerdotes que queiram de verdade fazer o bem, cumprir a palavra de Deus, realizar realmente o compromisso que assumiram para com Ele.
Aos seminaristas, futuros sacerdotes, peço de coração, que sua vocação seja autêntica, verdadeira, que não façam dessa decisão um meio de se promover ou sustentar. Não olhem para o sacerdócio como “meio de vida”, não pensem em como tirar proveito da bondade dos outros, e sim, como poderão ser sinal de bondade e justiça na vida das pessoas.
O mundo precisa de pessoas comprometidas e verdadeiras. Os filhos de Deus, que são confiados a vocês esperam encontrar em vocês a acolhida e o companheirismo sério e justo para continuarem acreditando que Deus está entre nós.
Permitam que o Deus da vida os ilumine e os guie sempre.


Adriana Morais