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segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Para a espera do Natal





Para a espera do Natal

                                                                   

Talvez devamos nos portar como quem espera um visitante que não marcou hora nem dia, mas que deixou a esperança de sua presença, por esses tempos. devemos perguntar então: - será que Ele vem?
Para quem perguntar? A única pessoa que poderia nos responder seria o primo, João. Mas João anda muito abusado ultimamente. Carrancudo. Exigente. Às vezes faz até ameaças: o machado está posto, o fogo está aceso, a palha será juntada e jogada no fogo, convertam-se raça de víboras, e assim por diante.
João já está cansado de tanta patifaria e podridão nesse lugar. É roubo, suborno, traficância, adultério, sodomia, coação, violência. A violência é tanta que não dá mais para relaxar. Quem era para fazer a justiça, suborna. Quem era para libertar, oprime. Quem era para salvar, corrompe. Quem era para alimentar e saciar, desvia. Quem era para gritar, cala os pequeninos. Quem era para proteger, violenta.
Não sei não, está difícil... João não transige.

Seu primo vem?

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

A Porta do Coveiro




A porta do coveiro

Na cidade em ruínas havia várias portas, que eram como portais. Essas portas ligavam realidades diferentes, porém na mesma dimensão. Era como entrar em uma tentando sair e aparecer na outra. Pois bem, havia a porta do prefeito, do gari, do médico, do padre, do juiz, do engenheiro, da advogada, do pistoleiro, da beata,  da professora e a do coveiro. Havia outras, a bem da verdade, mas essas já dá para se contar essa história.
Quem tentava sair desse lugar sempre retornava por outra porta.
A porta do prefeito era a mais procurada. Indubitavelmente. Quase todo mundo pelo menos uma vez na vida batia lá. Para pedir e algumas vezes para reclamar. Quase nunca eram atendidos. Mas continuava sempre a mais procurada.
A porta do gari era uma porta singela, em contraste com a do prefeito. Uma porta limpa a do gari. Por lá toda sujeira da cidade passava e ninguém notava. Ninguém ia lá, a não ser quando esse entrava em greve e ia bater na porta do prefeito e o lixo se amontoava. A porta do médico ninguém queria visitar, mas pelo menos uma vez na vida, todos passavam por ela. Da porta do prefeito, quando se conseguia entrar se saía sempre. Desanimado e às vezes pela porta dos fundos. Da porta do gari ninguém entrava, então também não se saía. Da porta do médico se entrava a contragostro e se saía às vezes satisfeito, às vezes apreensivo outras vezes não se saía.
A porta do padre, essa era imponente. Majestosa. Era antiga como a cidade, que aliás fora surgindo ao redor dessa porta. Alguns habitantes da cidade habitualmente entravam por ela. Entravam pesados e saíam mais leves em todos os sentidos, mas a média de idade deles estava aumentando.  Quanto a porta do juiz, esta era quase inacessível. Ninguém queria ir. Só em última necessidade e geralmente na companhia da advogada. Este sim, tinha uma porta fácil. Construída pelo engenheiro. O engenheiro por sua vez tinha uma porta retangualar, calculada, medida na forma justa. Quando construiu a porta da advogada houve uma querela qualquer.
Quem entrava pela porta do juiz algumas vezes saíam pela porta dos fundos que é gradeada. Demoravam muito e muito para de lá sair. Da porta do engenheiro, ao transpô-la poder-se-ia retornar, estava sempre no mesmo lugar, imutável. Ao se passar pela porta da advogada se ía e se vinha, se entrava e se saía. Se buscava uma preciosidade que se estava preste a se perder.
A porta do pistoleiro era sui generis. Escura. Construída com restos. Sombria. Pouca gente entrava por ela, alguns saíam. Aparentemente mais leves, com um peso invisível que jamais seria descartado. Ao lado estava a porta da beata. Uma porta antiga cheia de santos e amuletos. O interessante era que todas essas portas descritas estavam mesmo numa única rua curvilínea. Quem entrava na porta da beata saía mais leve, mais contente. Mais que qualquer outra, a porta da professora era a mais frequentada. Todos os habitantes daquela cidade estranha haviam passado por ela. Saíam melhores do que entravam.


Assuero Gomes
assuerogomes@terra.com.br 

sábado, 29 de novembro de 2014

Vem Senhor!







DO IRMÃO PADRE JOÃO PUBBEN 

Irmãs/Irmãos,

Paz e Alegria!

Há 45 anos, o tempo do Advento que nos encaminha para o Natal, também começou no dia 30 de novembro.
Envio – com amizade – “VEM, SENHOR”, que Dom Helder confiou ao papel em sua vigília de 29/30.11.1969.
Desejo para todas e todos uma valiosa preparação para celebrar a Encarnação de Jesus, neste ano, JP

VEM, SENHOR !

Não sorrias,
dizendo
que já estás conosco.
Há milhões que não Te conhecem.
E de que basta conhecer-Te,
de que adianta tua vinda,
se para os teus
a vida continua igual?...
Converte-nos!
Revolve-nos!
Que a tua mensagem
se torne carne de nossa carne,
sangue de nosso sangue,
razão de ser de nossa vida.
Que ela nos arranque
do comodismo,
da boa consciência!
Seja exigente,
incômoda,
pois só assim
nos trará a paz profunda,
a paz diferente,
a TUA paz!...

Recife, 29/30.11.1969


Hélder Câmara

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

A Cruz e o ninho


                                                   

A cruz e o ninho


Na estrada havia uma cruz. Havia uma cruz na estrada. Ao longe parecia que ao encontro das margens, onde as paralelas se encontram, ali estava a cruz. Ela parecia o centro do caminho, mas não era. Quanto mais caminhávamos a cruz parecia maior. Percebíamos que era fincada ao lado da estrada. De pedra. Uma cruz de pedra ao lado do caminho.

Caminho de pedra e cruz de pedra, e pedra de caminho e cruz.

Não era o fim da estrada, apenas estrada. Não era no início nem no meio nem no fim. Era estrada e cruz. Lugar seco aquele. Xique-xique, graveto, avelós para quebrar a monotonia do cinza e do marrom.
A cruz estava lá. Imóvel. A estrada caminhava e nós entre a estrada e a cruz. As nuvens caminhavam, a sede não. Era eterna como a cruz de pedra. A sede é dura e eterna como a pedra. Uma carcaça de um boi morto velava a cruz. O sol como uma vela colossal e quente descarnava a pele e a carne de quem parava. Fervia o chão, fervia os pés, fervia a língua e a garganta seca como a morte. Cegava.
A cruz de pedra brigava com o caminho dos caminhantes. Tentava-os. Morrer e descansar agarrados à cruz ou caminhar e morrer caminhando. Morrer é fácil, viver é difícil Diadorim.

Entre os braços no canto a cruz guardava uma surpresa. Era delírio, visagem ou canto mesmo?
Um ninho.  Um ninho descansando no braço esquerdo da cruz. Um ninho feito uma coroa de espinhos. De uma coroa de espinhos. Simplesmente um ninho perdido numa margem de uma estrada sobre uma cruz. Dentro do ninho um ovo. Dentro do ovo uma esperança. Na esperança um depois.
Paramos incógnitos. A paisagem nos consumia e derretia e nós consumíamos a paisagem, a única coisa que se podia beber era a paisagem. Ali até os sonhos secam. Ali onde se começa a ter saudade das saudades que passaram.

Estávamos nós incorporados para sempre numa estrada de um caminho, olhando uma cruz de pedra com um ninho pousado sobre si e dentro do ninho um ovo. Tudo isso incorporado numa paisagem imutável, um sertão de paisagem.

Havia um ovo, um ovo dentro de um ninho, um ninho sobre uma cruz de pedra, uma cruz de pedra incrustada na margem da estrada. Parados ali havia três pessoas olhando para o ninho. Esperando o pássaro brotar.


Assuero Gomes 

terça-feira, 18 de novembro de 2014

De águas...




De águas...





Tão suave e espelhal




Como uma passagem para o passado....


Como uma fonte no meio do jardim




Como plantas no aquário do céu.


sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Pandora e Maria

Pandora e a festa dos desesperados

Assuero Gomes
Médico e Escritor

Eu, Assuero, isolado na ilha do planalto, tive uma visão, que a princípio me perturbou muito, mas um vento suave, como uma brisa, me soprou um alento e disse que não me perturbasse o coração, pois tudo haveria de passar.
Uma mulher, bela, sedutora, voluptuosa, de grandes seios fartos, de onde escorria mel e do outro, leite, sentada numa magnífica caixa, trabalhada em filigranas de ouro sobre marfim e ébano. 

No centro de uma praça uma multidão acorria à mulher. Queriam beber do leite e do mel de graça. Eram centenas de centenas. Gente de todo tipo. Mendigos, aleijados, míopes, caolhos, prostitutas, dançarinos, glutões, beberrões, palhaços, fugitivos, empresários, endividados, domésticos, donas de casa, adolescentes, estudantes, domadores circenses, mambembes, doentes, peregrinos, incautos, descuidistas, banqueiros, funcionários públicos, padioleiros, amantes, e muita gente mais.


Como ondas, avançavam para a mulher, que lasciva, vestida de escarlate e lábios carmim, acenava para a multidão indócil e aflita, atrás de leite e mel de graça.
Aumentando o frenesi a mulher abria a caixa e de lá tirava notas graúdas de dinheiro e aspergia sobre a população, dissolvendo o pouco de povo que existia e fomentando a massa. Deliravam todos numa orgia sufocante. Da caixa a mulher passou a retirar e espalhar palavras, muitas palavras. Palavras de discórdia e disputa. Mentiras e calúnias. Molhava as palavras em um pouco de leite e mel para torná-las mais palatáveis, mais saborosas, outras vezes as colava nas cédulas.
Era uma caixa sem fundo. Quanto mais ela tirava as palavras de lá, mais surgiam. Sem fim.
A multidão começou a se olhar de maneira estranha. Pai desconfiando de filho, amigos de longos anos se estranharam, namorados se agrediram, os mais ricos e os mais pobres se engalfinhando no chão, negros contra índios e mulatos contra brancos.
O ódio foi se alimentando do próprio ódio. Lutas e ferimentos sangravam e molhavam o chão. Impassível a mulher exibia um sorriso discreto. Como um carnaval às avessas, as pessoas já desfiguradas na sua agonia, aflitas não sabiam para onde ir, presas dentro da própria praça. Alguns tentavam recolocar as palavras na caixa mas era impossível pois já tinham sido espalhadas e seu efeito devastador se fazia presente de forma irreversível.
Pedi então ao vento que me acordasse dessa visão tenebrosa. Pedi ao Vento...



Depois da festa dos desesperados...

Ao final da festa de Pandora, onde a mesma havia distribuído leite e mel de graça, junto com algumas cédulas de dinheiro, e espalhado palavras de discórdia sobre a multidão dos desesperados, que freneticamente se atracou entre si, restou o caos.
Irmãos contra irmãos, pais contra filhos, negros contra mestiços, brancos contra índios, sulistas contra nordestinos, homossexuais contra héteros, jovens contra idosos, ricos contra pobres, católicos contra evangélicos, todos contra todos e contra si, numa diabólica cisão fratricida, um pentecostes ao inverso, um reino de Babel.
Restaram os sobreviventes. Estrupiados, rotos, um trapo de nação em frangalhos. Mais pobres que antes, sujeitos às esmolas prisioneiras. Almas e corpos machucados. Ali na praça que virou uma arena, ao centro, Pandora ria despudorada, sentada sobre sua caixa, agora vazia.
Do outro lado da praça, numa campina, uma senhora observa serena, com olhos de mãe. Veste-se de maneira digna e singela. Não fala, não gesticula, não se agita. Comovida, espera pelos primeiros feridos. Os famintos, os iludidos, os doídos, que agora chegam. As chagas sociais expostas, as promessas vãs, não cumpridas, as decepções que pesam na cruz de uma vida difícil. Esses são os desesperados.
A senhora observa as marcas de sangue no caminho. Acolhe um a um. Seus gestos agora são calmos, fraternos, maternais. Escuta e cuida. Alivia e consola. Nada promete apenas trabalha, o trabalho dos inocentes que têm as mãos limpas e podem tocar nas chagas dos pobres.
O tempo serena. O balburdio da festa aos poucos vai se tornando silêncio. Uma sinfonia de alvorecer vai surgindo. O vento retorna seu sopro de vida e alivia.
Logo alguns vão chegando e ajudando. Estão sofridos também, mas resistiram e agora ajudam. A harmonia perdida  vai se reincorporando ao ambiente, os suspiros, os gemidos de dor são diluídos na alegria de servir e na esperança. A massa disforme pelo sofrimento vai aos poucos se formando em povo.

A senhora então começa a falar palavras de alimento, de medicamento, de trabalho digno, de escola, de carinho, de respeito, de união, de partilha, de fraternidade, de compromisso, de ajuda, e asperge aqueles desesperados com uma imensa chuva de misericórdia. É como uma chuva que desce do céu, do coração de Deus.
Ali, misturado aos que ajudam, seu filho se mantém incógnito, como se fosse um, um com os outros, um em todos. O desespero vai dando lugar à esperança. Um novo tecido vai se refazendo, como um tecido novo que apaga os remendos e se refaz sob a linha de sutura do serviço e da justiça. Como um manto inconsútil. Um manto que abriga e agasalha os despossuídos, um manto com que se faz a bandeira de uma nação. Um manto no qual se abriga os filhos, um manto no qual se cobre a tenda da humanidade e se come o pão. O pão da partilha.
Ao final nada restou da festa de Pandora, nem uma tênue lembrança, nem uma saudade sequer.
Reconstruir na fraternidade sob o manto da misericórdia, recolher o disperso, cuidar de um povo, esse é o serviço da Senhora e de seu filho muito amado. Rogai por nós, do Brasil.

Assuero Gomes