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sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Poesias do Dom (Helder Camara)


 
 
 
 
                                          Mural "Tributo a Gaudí" do Sindicato dos Médicos de PE
 
 
 
Poesias do Dom
 
 
Às 5 horas, exatamente

chega à minha janela

a carrocinha de pães

e fica distribuindo pão

a vizinhança inteira...

Que tal

se fizéssemos o mesmo

com os Pães de sonho

e de paz ?

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Poesias do Dom (Helder Camara)


                                          rio Vltava
 
 
 
Poesias do Dom
 
............................................. 
Se  partires teu pão
com medo
sem confiança
sem audácia,
em dois tempos,
teu pão
se acabará.
Experimenta parti-lo
sem previsão,
sem cálculo,
sem poupança,
como filho de Deus,
de todos os trigais do mundo...

 

terça-feira, 11 de setembro de 2012

A última lição de D. Helder, La dernière leçon de D. Helder,The last lesson of D. Helder,Die letzte Lektion des D. Helder,


                                           
 
 
 
 A última lição de D. Helder

 

Hoje, 17 de agosto de 2012, na Sé de Olinda, procedemos à exumação dos restos mortais de D. Helder. Manhã fria e chuvosa de agosto.

Depois de praticamente treze anos sepultado no chão dessa igreja, seus restos mortais repousarão ao lado dos de D. Lamartine, bispo irmão que o auxiliou no pastoreio da Arquidiocese de Olinda e Recife e dos de Pe. Henrique, mártir da ditadura que se instalou no nosso país a partir de 1964.

Envolta em seu caixão ainda restava a bandeira do Movimento dos Sem Terra, intacta, na época, um símbolo da luta de camponeses em busca de um pedaço de terra para plantar e sobreviver com suas famílias. Lembro-me do dia do enterro.

Confesso que nutria em meu íntimo a esperança de que o corpo dele estivesse intacto também, tal qual a bandeira, pois no meu pensamento isso seria um sinal poderoso para a Igreja, de que o Dom é um santo e como tal, tudo que ele lutara e escrevera e sinalizara teria que ser aceito oficialmente.

Ledo engano. Mais uma vez o profeta surpreende! Mais uma vez ele nos mostra que os pobres é que são os profetas de Deus.

Lentamente ele nos vai ensinando sua última lição, ou seria a primeira na vida plena? Não importa, é uma lição importante, um ensinamento para nós e para nossa Igreja: tudo passa, prestígio, glória, cargos, poder. Tudo é pó e ao pó tudo retorna. Outro ensinamento: os pobres são os destinatários primeiros da boa nova do Ressuscitado, pois só Ele é quem saiu do túmulo com vida, e vida plena.

Pouco a pouco a morte vai mostrando aos olhos humanos o estrago que causa, mesmo nas pessoas mais especiais e queridas. O som lúgubre, oco, de saudade, destampa as lajes do chão da Sé. Outra surpresa, o Dom foi sepultado como os leigos o são, com a cabeça voltada para a porta, e não ao contrário, como os clérigos. O que o desgaste da morte não mostra é o que os olhos da fé iluminam, como uma luz vinda do alto a nos perguntar: por que procuram o vivo dentre os mortos?

A resposta veio-me algumas horas após. Saindo dali, deu-se à luz uma criança, nos meus braços, saudável, chorando forte a plenos pulmões, inspirando e expirando o sopro da vida, o pneuma que a tudo anima.

Certamente mais um sinal do Dom, ensinando que a vida é eterna.

 

Assuero Gomes

Médico e escritor


 

 

 

domingo, 9 de setembro de 2012

“ Sonhos, sonhos são”


 
 
 
 
 Sonhos, sonhos são”

 

Os sonhos e as cirandas são para ser vividos e celebrados. Os `sonhos sonhos são´, e serão tanto mais belos quanto mais altos e mais profundos, até tocarem o chão por onde caminham os pés desnudos e calejados.

Os sonhos existem para serem sonhados e dançados como as cirandas, sem donos, sem orquestras nem maestros, de mãos dadas, à beira-mar, ao som do vento e do balbucio dos coqueiros, no ritmo das ondas. Serão findos, mas infinitos enquanto mudam a realidade de dor e sofrimento; enquanto são ternura e acalanto, e terão existido mostrando que uma realidade mais próxima de Deus é possível.

As cirandas são efêmeras como os desenhos que fazemos na areia da praia, mas a felicidade que proporcionam é eterna no coração de quem as ouvem e as dançam; assim a comida. Sacia no momento. Teremos fome mais tarde, mas a plenitude da saciedade é graça, é dom, é infinita. Deixa saudade, deixa memória, deixa presença.

Talvez seja este o último número deste jornal. Talvez não. Sinalizamos que é possível se fazer presente no presente do pobre faminto. Sinalizamos que é possível tornar concreto o Evangelho e a Eucaristia. Mostramos também como é frágil e limitada nossa fé.

Somente por muito amor, muito amor, os pobres nos permitiram oferecer estes alimentos nestes quatro anos, e somente por sua misericórdia, sua profunda misericórdia, nos perdoarão por não podermos mais continuar.
 
Fev.2008 quando da despedida do restaurante do Dom da Partilha

 

 

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

D. Helder e Chico Buarque


 
 
 
 
 
D. Helder e Chico Buarque
 
 
 
 
Jornal Igreja Nova - 08/99
 
Esta entrevista, foi concedida pelo cantor e compositor Chico Buarque de Hollanda, a Assuero Gomes, integrante do Grupo de Leigos católicos Igreja Nova, quando de sua visita a Dom Helder, no dia 16 de julho.
 
Igreja Nova - Chico, qual a lembrança mais interessante que você tem, em relação a Dom Helder Câmara?
 
Chico Buarque - Todo mundo sabia que não se podia falar em Dom Helder. Eu não era muito querido também não, mas podia fazer meus shows. Eu vim aqui fazer um show no Geraldão, o show estava indo e tinham me falado que Dom Helder estava lá assistindo. O show estava indo mais ou menos morno, uma música e outra, aí eu falei: "eu queria anunciar e agradecer a presença de Dom Helder Câmara. Eu nunca fui tão aplaudido na minha vida. Aquele ginásio veio abaixo. Foi uma coisa linda. Isso foi em setenta e pouquinhos... setenta e dois, setenta três.
 
Zezita - Sempre que você fez shows aqui, Dom Helder foi aos seus shows.
 
C.B. - Sempre. Das outras vezes eram shows mais tranqüilos. Desse, eu me lembro especialmente por causa disso. O nome dele estava inteiramente vetado, me disseram que ele estava lá, mas era segredo. E quando eu falei, o ginásio inteiro, todo mundo levantou, aplaudiu. Foi o meu maior sucesso. (risos)
 
I.N. - O que Dom Helder representa para você?
 
C.B. - Bom, para mim e para o Brasil inteiro , Dom Helder é um símbolo de luta pela justiça social. Se a gente se lembra dele no Rio de Janeiro, ainda no tempo da Favela do Pinto, nos anos sessenta, a atividade dele lá, deixou marcas até hoje. E mais adiante um símbolo de luta também, pela liberdade, pela democracia na época da ditadura, onde ele era uma das pessoas mais visadas, mais cerceadas, mais vigiadas e mais perseguidas. Eu conheço Dom Helder pessoalmente, desta época e tenho uma admiração profunda por ele. Eu e todos os brasileiros temos uma dívida muito grande para com ele.
 
I.N. - Você que sempre foi o nosso ícone de luta por uma situação melhor para o país, falando em linguagem de igreja, da "denúncia profética", o que é que você espera do Brasil para o futuro, já que, em nossa opinião, Fernando Henrique foi um grande fiasco?
 
C.B. - Bom. já que estamos falando a linguagem de igreja, vou citar Dom Mauro Morelli que diz que preferia Fernando Henrique quando ele era ateu. (risos)
Eu acho isso ótimo. Enfim, eu já não tinha grandes esperanças desde o primeiro governo de Fernando Henrique. Achava que essa aliança que o PSDB estabeleceu com o PFL, era perigosa e no fim das contas, se revelou mais perigosa do que eu imaginava, porque no governo, numa aliança de liberais e social-democratas, não sobrou para a social-democracia. E parece que a necessidade de afirmar essa aliança e de renegar o passado, falou mais alto. Enfim, nós temos aí mais três anos de espera, não sei bem do quê. Vamos pensar em 2002
 
I.N. - Arrisca uma profecia para 2002?
 
C.B. - Não, eu não sou profeta.
I.N. - Chico muito obrigado e um abraço.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

HELDER, o Dom da Partilha.


 
 
 
 

HELDER, o Dom da Partilha.


 

Não passaram pela Terra pessoas que pensaram mais nos outros que em si própria, nem passaram pela Terra pessoas que acreditaram visceralmente na palavra de Cristo mais que nas suas próprias convicções, nem que se deram sem limites para que os mais necessitados tivessem alguma chance.

Não passaram por este tempo da história pessoas que encontraram sua razão de ser na vida dos pobres, nem que se esvaziaram a si mesmas para que pudesse nascer e crescer a fraternidade entre as pessoas e os povos. Estas pessoas não passaram por nós. Estas pessoas não passaram.

Estas pessoas estão conosco, estão na Terra e na história para sempre. Estão além do tempo e do espaço, além da lembrança e da gratidão. Estão inseridas no Amor, que a tudo contempla e plenifica.

É difícil, para algumas gerações incrédulas, acreditarem que pessoas assim existam. Para estas gerações, tais pessoas habitam no imaginário, nas lendas e nos contos sacros e piedosos. Não imaginam que suaram, sangraram, verteram esperanças e consolo por todo o seu caminhar. É Francisco, é Vicente de Paulo, é Helder Câmara e tantos outros.

O eterno Dom de Olinda e Recife perpetua-se nas suas obras e inspirações. Patrimônio humano, do sagrado e do social, continua gerando atitudes e ações em prol dos mais necessitados, dos injustiçados, dos renegados, dos órfãos da sociedade.

Assuero Gomes

domingo, 2 de setembro de 2012

Dom Helder, o centenário e os trabalhadores de última hora... Dom Helder, die Hundertjahrfeier und Arbeiter last minute...Dom Helder, the centenary and workers last minuteDom Helder, the centenary and workers last minute


 
from Youtube
 
 
 
Dom Helder, o centenário e os trabalhadores de última hora
Dom Helder, die Hundertjahrfeier und Arbeiter last minute
                                                           Dom Helder, the centenary and workers last minute

Com a aproximação do centenário de nascimento de Dom Helder Camara em fevereiro próximo e o afã de seus admiradores e outros ligados à estrutura da Igreja em prestar-lhe uma justa homenagem, me vêm à mente duas coisas: a primeira é a parábola dos trabalhadores de última hora e a segunda é um pensamento de Padre Arnaldo Cabral.

Na parábola identificamos o pai de família que vai buscar trabalhadores para sua vinha na praça da cidade. Contrata-os por uma diária estipulada para a época (1 denário) e à medida que o dia vai passando ele retorna à praça e vai chamando os desempregados e a todos dá o mesmo pagamento, mesmo com diferenças gritantes  de horários de trabalho.

Em analogia vejo o IDHeC (Instituto Dom Helder Camara) como os trabalhadores de primeira hora, aqueles que sempre estiveram ao lado do nosso arcebispo nos momentos mais tenebrosos quando era perigoso e maldito estar junto de um profeta “chamado” vermelho.

A CNBB seria os trabalhadores de segunda hora: entidade idealizada e fundada pelo próprio Dom, para dar mais autonomia e liberdade aos nossos bispos e principalmente uma maior resolutividade aos problemas gritantes do Povo de Deus.

A Arquidiocese de Olinda e Recife seria os trabalhadores da undécima hora (última hora).

A parábola segue contando que muitos são chamados...

Dom Helder no seu espírito imenso e imerso na generosidade e misericórdia de Deus, certamente ficará feliz e agradecido por toda e qualquer manifestação em memória de seu trabalho, no espaço de tempo que o Senhor lhe permitiu. Ficará um pouco constrangido com as loas à sua pessoa, mas as perdoará, pois terão sido manifestações, as sinceras, do carinho de intelectuais, dirigentes, assessores, funcionários. Não julgará intenções, pois seu coração infantil não conjuga este verbo.

Apreciará, sem dúvida, celebrações da santa missa, celebrações ecumênicas, manifestações culturais, livros, artigos, memoriais, procissões, simpósios, semanas, jornadas, cultos, seminários, etc.

Nada dirá, no entanto, pois seu espírito nunca foi esse, sobre o esquecimento dos trabalhadores de todas as horas, acerca dos Pobres. Sua fome e sua miséria. Seu subdesenvolvimento, seu perambular nas ruas e calçadas, desnudos e sedentos. Suas prisões sem visita. Ficará triste e pedirá ao Pai, “perdoe-lhes, eles não sabem o que fazem”.

A segunda coisa que me veio à mente, foi o pensamento de Padre Arnaldo Cabral, que certa vez o expressou na frente do Dom com os padres de nossa arquidiocese naquele tempo “o problema, Dom Helder, é que todos nós o admiramos, mas nenhum de nós o imita”. E a parábola em dado momento diz: ... encontrou ainda outros que estavam desocupados, aos quais disse: Por que permaneceis aí o dia inteiro sem trabalhar? – É, disseram eles, que ninguém nos contratou. Ele então lhes disse: Ide vós também para a minha vinha.

Talvez nossa Igreja demore mais cem anos para dimensionar, com justiça, o homem e sua obra, a obra que Deus realizou no seu povo através dele. Certamente Olinda e Recife, como cidades impenitentes que são, não mereceram Dom Helder. Continuam sem merecer, pois excluindo os Pobres e negando-lhes a dignidade de filhos e filhas de Deus, se dizem cristãs. O Dom se alegrará mais com cada copo d´água oferecido a um destes pequeninos...

Em 15 de abril de 2008
 

Assuero Gomes