Visitantes

quarta-feira, 16 de março de 2016

Apanhador de Trigo no Campo de Centeio








Apanhador de Trigo no Campo de Centeio


A foice corre cega por entre o capim, as ervas daninhas e os pés de centeio à procura de trigo. O tempo é ingrato e as nuvens pesadas, sem chuva, abafam o tempo. Os ceifadores de branco continuam sua árdua tarefa, pois há que se encontrar trigo, debulhá-lo, amassa-lo e fazer o pão.

O destino pode ser cego como a foice, mas a determinação há de ser persistente e incansável. Desbastar o mato, separar o trigo e queimar a palhar. Um tempo de trabalho, um tempo de colheita, um tempo duro sem perder a delicadeza da massa.

Para os médicos e médicas pernambucanas todo tempo é tempo, pois seu trabalho gera pão, o pão da saúde, do acolhimento, do cuidar. Caminham entre vários campos de centeio e sua colheita é farta. Apesar da erva daninha do descaso com a saúde, por parte desse grande campo chamado Brasil, conseguem uma boa colheita em pequenos grãos de dia-a-dia, fazendo a diferença na vida do povo.

Tempos difíceis e tenebrosos esses do nosso campo, mas frutos também para os semeadores foram colhidos: luta perseverante sem deixar esmorecer a vontade, reajuste plurianual, luta em Brasília, desafio ao desgoverno federal, presença em todo estado, campanhas, resgate da luta da Residência Médica, caravanas, luta na saúde suplementar, expansão e ampliação da presença sindical, nomeação de concursados, denúncia e ação na segurança especialmente nas maternidades, atuação nas endemias, incorporação da gratificação de plantão...

Tempo de festa também. Memoráveis encontros, pois a vida é feita de pão e vinho, trabalho e festa. São João, Carnaval, Festa dos Médicos, participação em eventos culturais, presença junto às outras entidades médicas.

Os apanhadores de trigo no campo de centeio tecem uma bandeira, verde como os campos e dourada como o trigo, e bordam incrustadas palavras de dignidade e transparência : SOU MAIS MEUS MÉDICOS !



terça-feira, 8 de março de 2016

Para deixar o ar entrar



Resultado de imagem para atendimento de saude no brasil



Para deixar o ar entrar ...


Poderíamos colocar em letras as conquistas, os desafios e as tentativas nas quais os médicos e médicas pernambucanos se entrelaçaram neste ano de 2015. Poderíamos projetar as expectativas e os sonhos a serem realizados neste tempo novo que se aproxima.

Lermos os sinais postos, não nos astros, mas no nosso chão de hospital, de PSF, de consultório, de maternidade, de posto de saúde, no chão marcado por passos, por sorrisos e lágrimas, por sangue e secreções, e traçarmos os caminhos vindouros.

Poderíamos escutar os desejos dos colegas e auscultar os gemidos do povo que anseia dias melhores para a saúde neste grande nosocômio, misto de circo, penitenciária e asilo psiquiátrico chamado Brasil.

Poderíamos mostrar aos colegas como desaparelhamos seu Sindicato de todo e qualquer atrelamento político-partidário e de quantas batalhas travamos com sua força e sua voz, como uma voz que clama no deserto, mas que se fez ouvir em toda a nação.

Fomos e somos a reação à inépcia modorrenta que assola o país, com extremo e triste conformismo da maioria dos habitantes, que se contenta com um punhado de farinha, uma novela e uma ficha no fim da fila para possível atendimento cidadão daqui a três anos.

Poderíamos dizer a todos da insistência em denunciar os desmandos e o sucateamento da saúde pública, do estado de guerra civil das maternidades públicas e das aberrações de endemias medievais surgidas pela falta de saneamento básico e de dignidade civilizatória.

Poderíamos tudo isso e fizemos. Poderíamos fazer um poema branco para saudar o ano novo, escrito com todas as tintas de todas as cores. Confeccionar um jaleco com as cores da paixão e compor uma música sem sirenes que espantasse o sono de plantões infindáveis.

Mas hoje, só hoje, vamos apenas abrir as portas e as janelas................




sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Encantadoras de serpentes



Resultado de imagem para médicas bonitas



Encantadoras de serpentes


Quem pode escapar aos encantos de Circe, ou dos cuidados de Hygiea ou de Panaceia? Quem sabe encantar a serpente do caduceu com tamanha graça e garra?
Vejo mulheres guerreiras de branco, que geram vida, renda e cuidado para os seus, que defendem e sustentam seus lares, independentes de companheiros se os houver. Que se entregam à vida com unhas bem cuidadas, com suave força, de suas mãos poderosas, muitas vezes com luvas de látex, desafiando o destino de ser mulher no terceiro mundo.
Coração às vezes machucados às vezes em festa, músculos cansados de trabalho ou de exercícios roubados de um tempo escasso, corpo seu, guardado ou generoso, que protege as crias e enfrenta o mundo, que se entrega e se recolhe.
Nada é alheio ao olhar dessas Dianas de Asclépio. Nada lhe foge ao mínimo detalhe, que lhe entrega uma intrusa ao menor movimento, mas que lhe cega ao primeiro encanto.
Filhas de Rita Lobato e Amélia Cavalcanti vão desafiando o tempo, as condições de trabalho, os companheiros, os filhos, a sociedade, os governos, as estruturas, as desigualdades, as injustiças, desbravando campos minados e desfraldando bandeiras ao vento que vem do amanhã. Vão vencendo o frio, o calor, o sono, as sogras, e escrevendo uma nova história, como diz um poema de um fado português, como a gaivota que enfrenta e vence a tempestade em mar alto.
Quem transmigrou o caduceu de Mercúrio para o bastão de Esculápio certamente foi uma dessas deusas encantadoras de serpente. A serpente é símbolo de astúcia e de vitória sobre a morte, pois quando eminente seu final o réptil se desvencilha de sua pele (casca) deixando-a para trás e confundindo seu algoz consegue escapar, mas quem venceu a serpente?
Uma homenagem às médicas pernambucanas, que exercem seu ofício com dedicação e abnegação, enfrentando todo tipo de dificuldade, que são protagonistas dos próprios lares e responsáveis em grande parte ou porcentagem pelo custeio da vida da família.
São maioria e grande responsável pela força de trabalho médico e ainda assim há discriminação recebendo, em alguns lugares, rendimentos menores que os percebido pelos médicos.  Independentes, essas guerreiras de branco não se deixam cooptar por favores de governos nem de quem quer que seja, pois com suas mãos limpas, lavam as feridas do descaso da nação, enxugam as lágrimas de muitas mães pacientes e de muitas crianças doentes, minoram a dor e o sofrimento de um país enfermo de cidadania.
Entre plantões, ambulatórios, clínicas e consultórios vão deixando suas marcas de vida vitoriosa, e seus exemplos são e serão sempre um motivo de orgulho para a Medicina de Pernambuco e para todo estado.
Quem encanta a serpente do Bastão de Esculápio senão uma bela Circe de Calcutá, refletida nos espelhos de Tejucupaco. 




Assuero Gomes






sábado, 13 de fevereiro de 2016

O Silêncio dos Inocentes



Resultado de imagem para hannibal lecter



                   O Silêncio dos Inocentes

Assuero Gomes


Quando as crianças gritam de dor nas esperas intermináveis das filas dos hospitais e ambulatórios do serviço público de saúde, ou quando as gestantes buscam maternidades que não há, como num filme de horror, as palavras do pastor negro, Dr. King, cobrando a omissão dos justos frente à injustiça, caem pesadas sobre a nação; ou ainda quando se pergunta por quem os sinos dobram, e ninguém responde como se nada estivesse acontecendo, há um grito mudo no ar.
Entidades e pessoas, pessoas e entidades, de passado combativo, cuja voz ecoava e fazia vibrar os corações e os pulsos de um país, hoje quedam silenciosas frente a um desmonte sem antecedentes, e parecem ouvir uma suave melodia como Maria Antonieta às vésperas da Revolução ou mesmo a corte brasileira nas noites que antecederam ao golpe militar republicano.
Percebo em mim e em outras pessoas a angústia que Clarice Starling sentia quando, mesmo depois de adulta, ouvia o som das ovelhas sendo mortas na fazenda de sua infância, e eram para ela como o grito de crianças sofrendo.
O Brasil está literalmente sacrificando suas crianças, gestantes e idosos, numa nem tão sutil desfaçatez, aniquilando a chance de um futuro melhor para as gerações que estão iniciando suas vidas, jogando pelo ralo da história a esperança de ser uma pátria mãe.
O silêncio das entidades incomoda tanto quanto o grito dos inocentes. A estrutura vil de poder que se instalou faz Dr. Lecter parecer um beato. Os tentáculos e as mandíbulas do Mal já avançam nas entranhas da nação e a decompõem em pedaços indigestos, e os que silenciam, como se consentissem, serão julgados, quiçá severamente pelo futuro.
Houve um tempo, não tão distante, que instituições se rebelaram contra coturnos e fuzis e mantiveram acesas as chamas da cidadania que só a liberdade alimenta. Hoje o descalabro de propinas, negociatas, processos escusos, desmontam a nação e o silêncio dos justos incomoda mais que o cinismo dos ímpios.
Dr. Hannibal Lecter comandava as mentes criminosas de dentro das grades, numa prisão de segurança máxima. Vale a pena lembrar a frase que ele continua dizendo para a futura geração de brasileiros, ‘nossas cicatrizes servem para nos lembrar de que o passado foi real’.
O início das investigações mostra a procura de um perfil psicológico de um assassino em série de mulheres que deixa sempre a pista de uma mariposa tropical no corpo de suas vítimas (as mulheres não eram gestantes nem as mariposas estavam contaminadas com nenhum vírus). Clarice busca, a partir do mentor do criminoso, desvendar o submundo tenebroso das mentes doentias. Clarice é da Polícia Federal Americana (FBI) e consegue solucionar este caso apesar das várias tentativas de intromissão na sua investigação.
O processo de corrupção que se instalou no país é tão predador que se tornou autofágico, como um canibal que se vê sozinho numa ilha e come seu próprio corpo.
Ao final o Dr. Lecter pergunta “ainda ouve as ovelhas à noite, Clarice?”. Aqui ainda gritam e gemem, toda noite.
Dedico esse texto em homenagem a CNBB e a OAB.







terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

a Igreja da Paraíba sofre.....









Carta aos irmãos da Igreja da Paraíba


Aos irmãos e irmãs leigos que vivem sua fé na Igreja da Paraíba e dão exemplo de virtude e perseverança na sã doutrina, toda Paz e toda Graça. Aos presbíteros e diáconos dessa mesma e amada Igreja Paz e Perseverança.
“E eis que ouvi o clamor que chega da Igreja da Paraíba e contei as lágrimas da Senhora das Neves. Eis que suplico às irmãs que estão em Guarabira, Campina Grande, Patos e Cajazeiras, que se cubram de cinzas e chorem sobre as lágrimas da Senhora, decretem um tempo de luto e oração.” “Suplico às irmãs que estão em Maceió, em Palmeira dos Índios e em Penedo que abram os ouvidos e os olhos para o lamento que vem da Paraíba, pois o corpo sofre as dores de quem foi violentado na sua dignidade de filho de Deus”. “Suplico às irmãs que estão em Natal, Mossoró e Caicó que não sejam mornas nem míopes, pois quando uma parte do corpo sofre todo corpo padece, abomino os omissos”.
“Suplico às dez irmãs que estão em Pernambuco, Petrolina, Salgueiro, Floresta e Pesqueira, ainda em Garanhuns, Caruaru e em Palmares, em Nazaré e Afogados da Ingazeira que cuidem, ajudem e se indignem, e especialmente à Igreja que está em Olinda e Recife, pois foi na hora da agonia que da Paraíba tiveste mais ajuda! É hora de acolher e acalentar, pois somos solidários na alegria e solidários na dor”.
Abateu-se e solidificou-se como numa noite tenebrosa, que tarda tanto a passar, sobre a Paraíba, uma alcateia vestida de pastores que escandaliza o rebanho. As pedras de moinho estão postas e as cordas estiradas, a mão do Senhor já paira sobre eles. Rezemos para que o tempo se abrevie, pois por muito menos os Borgias foram condenados na fogueira da História.
Suplico aos cristãos todos dessas igrejas que se unam em oração, para que não percamos nenhum desses pequeninos; e que suas reações frente aos escândalos sejam de um discernimento tal, que só o dom Espírito permite, que separem o joio dos maus pastores do trigo do qual é feito o Pão. Permita que a fé nos garanta que as portas do inferno jamais prevalecerão sobre a Igreja, que mesmo sofrendo todo tipo de assédio do Mal, toda perseguição e todo mau exemplo sairá vitoriosa e lavada nas vestes puras do Cordeiro.
Rogamos a Maria, mãe nossa e de todos os cristãos, que interceda sempre e cada vez mais, para que possamos não perder nenhum dos pequeninos, prediletos de seu Filho e que encurte o tempo de sofrimento dessa querida Igreja da Paraíba.
Assim como anuncia a profecia de Ezequiel, ai dos pastores de Israel que apascentais a vós mesmos, não devem os pastores apascentar as ovelhas? Assim como anuncia Jeremias, Ai dos pastores que destroem e dispersam as ovelhas do meu pasto, diz o SENHOR.
Portanto assim diz o Senhor Deus de Israel, contra os pastores que apascentam o meu povo: Vós dispersastes as minhas ovelhas, e as afugentastes, e não as visitastes; eis que visitarei sobre vós a maldade das vossas ações, diz o Senhor. E ainda da boca do próprio Jesus: O bom pastor dá a vida por suas ovelhas. O mercenário, que não é pastor e não é dono das ovelhas, vê o lobo chegar, abandona as ovelhas e foge, e o lobo as ataca e dispersa. Pois ele é apenas um mercenário e não se importa com as ovelhas.
Pior quando o lobo é o próprio pastor.
Irmãos e irmãs que estão na Igreja da Paraíba, como uma vela acesa diante do sacrário seja nossas orações dia e noite pela paz, harmonia e benignidade nas vossas vidas, e que um tempo novo de conciliação surja numa nova página do Livro onde está assentada a palavra da vida dessa igreja tão querida e que vive e sobrevive sob a proteção maternal de N. Sra. das Neves.

Assuero Gomes
Cristão Católico Leigo
Da Arquidiocese de Olinda e Recife

domingo, 10 de janeiro de 2016

D. Helder e os corrutos.





D. Helder e os corrutos.

Assuero Gomes


Os profetas abominam a corrução e os corrutos. Todos eles. O modelo clássico de profeta de Deus, saído do meio do povo, sem vínculo algum com os círculos de poder é Amós.
Esse profeta era um pastor de Técua, uma região limítrofe do deserto Judá, que foi enviado por Deus a profetizar a Israel, na época do rei Jeroboão II, em torno de 750 a.C.
Era uma época áurea desse reinado (Reino do Norte) com expansão econômica e fausto considerável (nada se igualando ao Egito e aos povos da Mesopotâmia). O luxo dos governantes se opunha drasticamente à miséria do povo. Passagens da sua profecia fariam corar de ódio as elites de Brasília e ele certamente seria morto em alguma esquina encomendada.
Ouçam: ... não retirarei o castigo, porque vendem o justo por dinheiro, e o necessitado por um par de sapatos, suspirando pelo pó da terra, sobre a cabeça dos pobres, pervertem o caminho dos mansos; e um homem e seu pai entram à mesma moça, para profanarem o meu santo nome.... ou ainda se referindo às damas da corte:  Ouvi esta palavra vós, vacas de Basã, que estais no monte de Samaria, que oprimis aos pobres, que esmagais os necessitados, que dizeis a vossos senhores: Dai cá, e bebamos.
Muitos desses reis e mandatários do palácio tentaram cooptar os profetas para que deturpassem a palavra de Deus e justificassem o estado de miséria dos pobres e seus impostos exorbitantes para a manutenção do luxo de uma corte opulenta e decadente, infestada por falcatruas, roubos, discórdias, acordos clandestinos, propinas e sonegações.
A memória de um profeta é algo muito precioso para o povo da nação onde ele profetizava, pois suas palavras, gestos, ações são referências perpétuas que iluminam o caminho de sua gente em tempos obscuros e tenebrosos. A memória de um profeta é sagrada. Usar de sua memória para tentar angariar simpatia ou esconder ações indignas ou incompatíveis com o que é certo e correto e digno, é uma profanação.
As pessoas que conviveram com D. Helder estão, aos poucos, indo fazer companhia a ele, no movimento inexorável do tempo. Posso afirmar com toda segurança que o Dom nunca teve partido político, nunca pregou luta de classes e sempre foi firme no diálogo e contava com sua força moral para jamais permitir que se usasse seu nome para fins partidários ou para justificar algum tipo de conduta moralmente controversa. A sua luta sempre foi em favor da justiça e em favor dos pobres, da harmonia fraterna e contra toda forma de ditadura tanto de direita ou de esquerda (naquele tempo ainda havia direita e esquerda). Sua vida foi frugal e monástica, posso assim comparar, sendo seu mosteiro o próprio mundo, e jamais se permitiu a guardar nada para si, nem mesmo cem réis.
O profeta Amós depois de profetizar a deportação de Judá foi perseguido pelo rei e sua corte com seus sacerdotes. Retornou a Judá, provavelmente ao seu rebanho e não se tem notícia de sua morte. Sua memória e profecia são preservadas com o zelo extremo como o são as coisas de Deus pelo povo judeu e pelos cristãos, e é um referencial inesgotável da ojeriza que o Senhor sente contra a exploração dos pobres e a corrução.
D. Helder será sempre o Eterno Dom de Olinda e Recife, sua memória deve ser preservada e protegida para que, como toda profecia e vida de um profeta, seja luz e ilumine os caminhos do seu povo nesses tempos obscuros nos quais vivemos.