domingo, 13 de janeiro de 2013

A caverna de Paulo, o terceiro


 
 
 
 
 
A caverna de Paulo, o terceiro

 

Conta-se uma lenda piedosa da Idade Média, que havia um grupo religioso de ermitões que, embora vivessem juntos, eram como que isolados. Viviam numa caverna e o carisma de seu fundador, chamado de Paulo, o terceiro, era o de viverem acorrentados com as costas voltadas para a entrada da referida caverna, de cuja entrada emanava a única luz possível naquele recinto. Os religiosos eram proibidos terminantemente de voltarem o rosto para trás e verem de onde vinha a luz.       

Oravam praticamente o dia todo e perseveravam no jejum e na mortificação corpórea. De tanto ficarem nesse carisma e posição, imaginavam que não existia mais nada fora da caverna, e se contentavam com as sombras emanadas de suas esquálidas figuras, projetadas na parede.

Paulo era o único que sabia da vida lá de fora, mas temeroso que o grupo se dispersasse, contava histórias assombrosas e terríveis, de monstros, demônios, dragões, almas penadas, infernos loucos e purgatórios intermináveis. Fora da caverna não havia salvação.

Para salvaguardar o grupo de tais ameaças, eram proibidos quaisquer tipos de leituras e conversas, amizades ou confidências. A chave que libertaria das correntes os pobres monges, foi enterrada bem escondida, para sempre. 

Aconteceu que morrendo Paulo, de velhice, já bastante caduco, o pequeno, esquálido, esfomeado e acorrentado grupo, perecia a cada dia, parecendo ser a morte o único e trágico destino para eles. A morte seria sua salvação, senão do corpo, mas a da alma, sendo essa verdadeiramente a que importava.

Já cheirava mal o corpo do fundador, que não podendo ser retirado daquele exíguo recinto, por motivos óbvios, foi precariamente envolto em trapos e colocado num lugar de destaque perto da parede da projeção das sombras. Com o movimento natural do sol tinha-se a impressão que o corpo se movia, pois as sombras mudavam de lugar conforme a hora do dia.

A lenda conta que depois de muitos anos, a caverna foi encontrada por peregrinos e estes vendo aqueles esqueletos insepultos e acorrentados, foram tomados de grande veneração e que ali acontecem milagres até os dias de hoje. Uma intensa romaria enche de visitantes os arredores e trás um bom desenvolvimento naquela área.

Eu preferiria que a história não acabasse assim.

Imagino que em seguida à morte de Paulo, o terceiro, um viajante passando por aquelas paragens, deixou cair algumas páginas de manuscritos. O vento teria soprado em todas as direções, e numa delas levado uma das folhas de pergaminho caverna adentro. Poderia ter sido justamente aquela página de João que diz “Deus é Amor”.

Imagino o dia que se fez dentro da caverna quando um deles conseguiu ler e interpretar com o coração o que significa Deus é Amor, e de como em seguida como se fosse dia pleno tivesse conseguido se libertar e sair da caverna, e vendo a luz do sol, descobrisse a Verdade e voltado libertasse os irmãos.

 

Assuero Gomes

 

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