quinta-feira, 20 de novembro de 2014

A Cruz e o ninho


                                                   

A cruz e o ninho


Na estrada havia uma cruz. Havia uma cruz na estrada. Ao longe parecia que ao encontro das margens, onde as paralelas se encontram, ali estava a cruz. Ela parecia o centro do caminho, mas não era. Quanto mais caminhávamos a cruz parecia maior. Percebíamos que era fincada ao lado da estrada. De pedra. Uma cruz de pedra ao lado do caminho.

Caminho de pedra e cruz de pedra, e pedra de caminho e cruz.

Não era o fim da estrada, apenas estrada. Não era no início nem no meio nem no fim. Era estrada e cruz. Lugar seco aquele. Xique-xique, graveto, avelós para quebrar a monotonia do cinza e do marrom.
A cruz estava lá. Imóvel. A estrada caminhava e nós entre a estrada e a cruz. As nuvens caminhavam, a sede não. Era eterna como a cruz de pedra. A sede é dura e eterna como a pedra. Uma carcaça de um boi morto velava a cruz. O sol como uma vela colossal e quente descarnava a pele e a carne de quem parava. Fervia o chão, fervia os pés, fervia a língua e a garganta seca como a morte. Cegava.
A cruz de pedra brigava com o caminho dos caminhantes. Tentava-os. Morrer e descansar agarrados à cruz ou caminhar e morrer caminhando. Morrer é fácil, viver é difícil Diadorim.

Entre os braços no canto a cruz guardava uma surpresa. Era delírio, visagem ou canto mesmo?
Um ninho.  Um ninho descansando no braço esquerdo da cruz. Um ninho feito uma coroa de espinhos. De uma coroa de espinhos. Simplesmente um ninho perdido numa margem de uma estrada sobre uma cruz. Dentro do ninho um ovo. Dentro do ovo uma esperança. Na esperança um depois.
Paramos incógnitos. A paisagem nos consumia e derretia e nós consumíamos a paisagem, a única coisa que se podia beber era a paisagem. Ali até os sonhos secam. Ali onde se começa a ter saudade das saudades que passaram.

Estávamos nós incorporados para sempre numa estrada de um caminho, olhando uma cruz de pedra com um ninho pousado sobre si e dentro do ninho um ovo. Tudo isso incorporado numa paisagem imutável, um sertão de paisagem.

Havia um ovo, um ovo dentro de um ninho, um ninho sobre uma cruz de pedra, uma cruz de pedra incrustada na margem da estrada. Parados ali havia três pessoas olhando para o ninho. Esperando o pássaro brotar.


Assuero Gomes 

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