quarta-feira, 9 de abril de 2014

A gênese do Mal


A gênese do Mal







A maior e mais incrível liberdade humana é o pensar. O pensar e o existir são quase sinônimos. A pergunta que quero colocar é a seguinte: o que leva um ser humano comum a praticar atos que vão contra sua própria natureza?
Pessoas comuns de vidas banais, muitos pais de família dedicados e amorosos, mulheres mães cuidadosas, incapazes de maltratar um pequeno animal, são sutilmente levados a praticar atos abomináveis, como sequestros, tortura e morte. Isso foi bem estudado por Hannah Arendt, grande pensadora do nosso tempo, filósofa e política.
Mesmo povos com bom desenvolvimento cultural permitiram e colaboraram para que práticas e sistemas cruéis de dominação e terror se tornassem comuns, como se a consciência individual e coletiva houvesse sido anestesiada. Em nome de um ideal maior, tudo é permitido, sob a égide da ‘obediência’ aos superiores.
Podemos observar na história humana, como ondas malditas, o afloramento do Mal, de tempos em tempos. Independente do grau de instrução das nações e de suas opções políticas. Morticínios em larga escala no abominável nazismo, mas também no stalinismo, no maoísmo, no castrismo, ainda anteriormente no Império Romano, e por toda história permeada.
Para que o Mal domine um povo, primeiro é preciso que a baixa estima da nação seja acentuada de maneira subreptícia diariamente, a educação seja aviltada pela desvalorização dos professores, o trabalho dos homens e das mulheres seja também desvalorizado, chegando ao ponto de receberem uma ajuda do dominador mesmo sem trabalhar, estímulo aos prazeres fugazes trazidos pelo consumo de álcool e outras drogas, sexo, muito sexo. Num processo destrutivo desses, a capacidade de pensar de cada indivíduo fica entorpecida e na sua baixa autoestima ele não se vê. Não é notado nem por si próprio nem pelos seus, nem pela sociedade. Esse é o ponto onde o terreno está arado, adubado e irrigado.
O Mal vai jogar suas sementes de erva daninha.
A ideologia do dominador vai ‘resgatar’ aqueles que estavam sem visibilidade e vai dar a eles um motivo para se sentirem vivos, notados, importantes. Vão usar siglas, adereços, fardamentos, símbolos de pertença ao sistema. Vão ter cargos e missões. Não vão pensar por si mesmos, vão obedecer. Nesses sistemas os dirigentes tudo podem, são como iluminados messias. Subornar, roubar, desvirtuar, negociar, corromper, destruir instituições e pessoas ou grupos que se lhes opõem, são permitidos por uma ‘causa maior’.
A democracia, o livre pensar, a imprensa, serão, então, apenas firulas de uma burguesia que não quer perder suas benesses. Nenhum indivíduo deve se contrapor ao coletivo.
Então aquele pai de família se permite a si próprio torturar seu semelhante, ou àquela estudante assaltar um banco, matar um cidadão, sem que sua consciência os acuse de nada. Ao se acordar, veremos então toda a carnificina tomar corpo e destruir um povo, uma nação, uma comunidade.
Diria com Hannah Arendt: “O mais radical revolucionário tornar-se-á um conservador no dia seguinte à revolução”.

Assuero Gomes
Médico e escritor 

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