sexta-feira, 6 de junho de 2014

Copa do Mundo, o jogo dos ricos

O jogo dos ricos

Na copa de 1970 eu era bem jovem, então com quatorze anos. Não entendia nada de política. Assisti e vibrei muito com as vitórias daquela seleção.
Passando o tempo cada vez mais ouvia dizer que futebol era uma espécie de manipulação sobre o povo para que este se tornasse menos participativo na política nacional, uma espécie de ópio.
O futebol era um esporte e um divertimento das massas. Um momento de ufanismo, como uma fumaça dissipante para os graves problemas pelos quais o povo passava. Era até para se torcer sem muita vibração, pois tudo aquilo era um circo das elites dominantes, financiado com o capital estrangeiro; como no tempo dos imperadores romanos, o estádio era o Coliseu.
Isso eu ouvia falar e fui crescendo ouvindo isso. Continuei sem entender muito de política.
O jogo mudou de lado. Quem estava na geral agora está no palanque oficial. O futebol continua sendo um dos grandes amores do povo brasileiro, só que ele agora assiste de fora dos gramados, de fora do Coliseu. O espetáculo ficou muito caro, inacessível.
Telões são armados na periferia. O povo precisa ser mantido a uma distância segura. Os estrangeiros agora ditam a lei dentro dos estádios e ao redor deles.
Não entendo como um simples ingresso para um campeonato de confederação possa custar algo em torno de trinta por cento do salário de um trabalhador, que construiu o estádio com o suor de seu rosto e que na Copa do Mundo venha a custar quase cinco vezes o seu salário.
Continuo sem entender de política, e devo confessar, também de futebol.
Estamos no segundo tempo daquela copa de 1970?
Pareço ainda escutar ‘somos 200 milhões em ação, todos juntos vamos’... ou será que eu estou ouvindo 90 milhões, ou isso é o valor do metro quadrado de cada coliseu ou arena, como seja, construída em regime de urgência? O tempo prega peças na nossa memória.
No tempo dos imperadores, Roma dava a cada cidadão o pão de cada dia (o que era possibilitado pelos pesados impostos da classe média e despojos de guerra) e propiciava espetáculos circenses, lutas de gladiadores, lutas de homens e feras e finalmente o martírio dos cristãos, para que o povo satisfeito se mantivesse calmo, ordeiro e feliz, se é que alienação pode-se chamar de felicidade.
Na minha ingenuidade ou ignorância política e futebolística, pensei que a Copa de 70 houvesse  acabado e que agora um novo jogo se iniciava, mas o jogo é o mesmo, a arena é a mesma, o público interno elitizou-se e ascendeu da geral para a social, o que mudou foi a cor do padrão e o povo assistindo bem longe, no telão da comunidade ‘pacificada’, bebendo sua cerveja e comendo seu pão.

Assuero Gomes
Médico e escritor



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