quinta-feira, 23 de outubro de 2014

A festa dos desesperados




A festa dos desesperados

Como quem estivesse em iminência de ser preso ou degolado, ou desempregado, juntou-se o grupo para uma festa. Uma grande festa para mostrar normalidade. Dessas festas de encher os olhos e ser comentada pelo bairro, e encher os salões de manicure com conversas e mais conversas.
Prostitutas de luxo e outras até banais, luz vermelha como nos melhores cabarés de Jorge Amado, palco vermelho, olhos vermelhos. Risos frouxos, gargalhadas como anteparos do medo. Bandeirolas vermelhas.
Uma cantora, como uma travesti, destoava entre roucas palavras, outras vezes amaciava em falsete. Tudo era falso, até o brilho da noite tenebrosa.
Chamem os incautos, os bêbados, as catitas, os que acham que essa luz é melhor que o amanhã. Comam, bebam, requebrem, cantem, pois é o melhor que conseguiram e amanhã podem perder.
A orquestra de doze tocava suas músicas caribenhas e a rouca, entre caras e bocas, se esforçava para agradar.
A festa dos desesperados espichava a noite para que não acabasse. Cachaça para as mesas mais afastadas da diretoria, rum para a mais perto, whisky se chegando e na mesa central puro malte importado.
Ao som desse bolero...

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