domingo, 18 de novembro de 2012

O circo e a igreja, a igreja e o circo...


 
 
 
 
 

 

Destas coincidências que não se pode duvidar porque quando acontecem já aconteceu e nada mais resta senão acreditar, aconteceu em duas cidades, uma na Itália, perto de Roma outra no nordeste do Brasil, lá para as bandas do sertão. A primeira muito rica e populosa, porém sem jovens e muito menos crianças, a nossa, pelo contrário com muitas mulheres e muitas crianças e muitas jovens, todas muito pobres.

Na nossa, por causa do custo para se manter o circo que estacionara definitivamente nas suas paragens e tendo o dono abandonado o leão por total falta de condições de alimentá-lo, foi obrigado a abandonar também toda a troupe e suas instalações que já haviam se enraizado no terreno seco. Na outra, a da Itália, aconteceu o contrário, um vasto prédio da Igreja, devido ao esvaziamento de público, tornou-se praticamente sem uso e a cúria local resolveu vende-lo. Quem se interessou como único pretendente foi uma rica companhia circense internacional, que adquiriu o majestoso edifício, e o transformou numa imensa casa de espetáculos.

Na nossa, a tristeza invadiu ainda mais aquela pequena comunidade, pois o único divertimento que ainda havia eram as diárias apresentações dos artistas, com o palhaço e suas mesmas piadas, uma bailarina e suas varizes que já não se escondiam, o cachorro amestrado e banguelo que ao final serviu como última refeição do leão, o apresentador com sua cartola rota, o casal de trapezistas que vivia brigando sempre apesar de viverem juntos, e o anão que fazia de tudo no circo desde alimentar o animal, fazer a faxina, ser dublê de palhaço, vendedor dos ingressos e de pipocas.

Na cidade italiana a transformação da igreja em circo não foi lamentada, pelo contrário, trouxe alegria aos velhinhos, pois as bonitas dançarinas, de pernas torneadas, tornavam suas vidas mais felizes, os trapezistas com os movimentos audaciosos junto ao jogo de luzes e som, ativavam as adrenalinas dos expectadores, lembrando seus movimentos perdidos nas artroses da vida. Animais exóticos atraíam a atenção da platéia daquele continente cansado, fazendo com que ela, a platéia, viajasse para países distantes, na sua imaginação... a mais recente aquisição foi um leão magro. O próprio pároco passou a freqüentar os espetáculos quase diariamente e dava boas gargalhadas.

Aqui no sertão, para aproveitar as instalações abandonadas, resolveu-se criar uma igreja, pois acharam que o povo estava vivendo mergulhado no mundo pecaminoso, cuja vida se resumia em trabalhar e ir para o circo, sem penitência nem reflexões nem celebrações nem mortificações, como se não bastasse a fome e a falta de perspectiva. Em pouco tempo consertaram a lona rasgada, ajeitaram a bilheteria, venderam o leão para um zoológico da capital que o revendeu para um circo novo da Itália. Aproveitaram o anão para as coletas. O apresentador, agora sem cartola, para organizar o dízimo, os trapezistas, se quisessem trabalhar teriam que se casar na igreja ou se separar de vez, a bailarina foi proibida de fazer parte, pois mostrara suas pernas todas as noites, e o palhaço...esse não tinha jeito mesmo, pois devido a tantas palhaçadas que fizera no meio daquela gente foi convidado a se retirar, porém resistiu e ficou na platéia.

No circo italiano, as roupas dos padres e acólitos assim como os paninhos do altar, que já estavam em desuso há muito tempo, foram doadas num gesto de caridade para a nova igreja do Brasil. Foi uma grande honra para o nosso pároco que pode se paramentar com roupas do século retrasado, e as vestimentas dos ajudantes e pajens serviram, com alguns retoques, para o anão, que pela primeira vez na vida usou roupas importadas. Foi uma festa. O problema era que o povo acostumado com o circo, queria diversão e não penitência nem reflexão. A igreja de Roma, ou foi o circo, já não lembro mais, orientou para que arranjassem um padre antigo já falecido com fama de santidade e se iniciasse novenas e trezenas, espalhassem sua fama e se abrisse um processo de canonização. Colocassem umas músicas animadas, dançassem e louvassem com muitos gestos, todas as noites, prometessem curas e prosperidade para todos; os que não conseguissem era por culpa deles mesmos e de sua pouca fé. Em pouco tempo duplicou o trabalho do antigo apresentador do circo, todos ficaram felizes e maravilhados...bem quase todos, menos o palhaço, que cada dia mais triste chorava suas lágrimas de melancolia.   

 

 

Assuero Gomes


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