segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Padre Arnaldo, o tempo e a Igreja.


 
 
 
 
Padre Arnaldo Cabral de Sousa, 94 anos.
Vida dedicada ao sacerdócio, à formação eclesial, à Igreja e especialmente aos pobres.
 
 
 
 
Escrevi esse artigo em  23 de novembro de 2007.
Palavras atuais. Vieram do coração.
 
 
 















 
 
 
 
Padre Arnaldo, o tempo e a Igreja.

 

Converso com Padre Arnaldo Cabral de Sousa, nesta tarde de novembro, no seu apartamento em Boa Viagem. Encontro-me diante de um amigo, o qual me habituei a admirar, e no qual vejo uma das mentes mais lúcidas e brilhantes que esta Igreja de Olinda e Recife já produziu. Estou falando de uma juventude de 89 anos, dos quais 64 no ofício de sacerdote. Novembro é seu mês, aniversário de vida e aniversário de sacerdócio.

Muitas maneiras há de se contar o tempo, ora como contas de um terço, dedilhadas em fervorosa oração, ora como páginas de um livro que vai amarelecendo, ora como um trem sobre trilhos, numa férrea estrada que não sabemos bem onde vai dar.

Peço ao amigo para lançar seu olhar sobre esta Igreja que está em Olinda e Recife e me contar o que vê, através de seus olhos do coração, que vê por dentro e por fora. Ele me fala dos arcebispos, com os quais conviveu e pelos quais podemos contar um pouco desse tempo e dessa Igreja.

O primeiro, D. Miguel de Lima Valverde, do qual padre Arnaldo recém-ordenado aos 25 anos de idade, em 1943, foi secretário particular, professor do seminário, quando foi indicado pelo então visitador apostólico do seminário(reitor paulistano e depois bispo D. Manuel Pedro Cunha Cintra) para Vice-reitor e diretor espiritual, indicação esta, aceita por D. Miguel, fato raríssimo devido à pouca idade do padre, mas que passou 5 anos neste cargo.

Padre Arnaldo guarda de D. Miguel a figura de uma pessoa delicada, austera e respeitosa, que aceitou bem a Ação Católica (uma verdadeira revolução na época), e que fazia suas visitas pastorais em todas as paróquias. Era um homem pobre e sem vaidades pessoais. Vivia na frugalidade e quem o visse nas cerimônias oficiais da Igreja jamais acharia assim.

Padre Arnaldo lembra de um episódio, no qual o governador do estado, Estácio Coimbra, chegou para falar com o arcebispo, e este estava rezando o terço e não interrompeu suas orações de maneira alguma. Aborrecido o governador se retirou. Poucos dias depois reconheceu que ‘se um sacerdote agiu assim, era porque era um homem de Deus’.

O segundo arcebispo foi D. Antonio Morais Júnior, que veio de São Paulo, de Guaratinguetá. D. Antonio nomeou “provisoriamente” padre Arnaldo para a paróquia do Espinheiro, na qual ele ficou como pároco por 45 anos ininterruptos. Deste arcebispo o padre ressalta ter sido ele um grande orador. Tinha uma visão pastoral muito avançada para a época, se misturava com o povo, erigiu várias paróquias nas periferias, inclusive as do Morro da Conceição, criou um incrível “carro-capela” onde os sacerdotes podiam dar assistência espiritual ao povo, celebrar a missa, confessar, enfim, uma capela móvel. Este arcebispo foi injustamente apelidado de “Antonio Coca-Cola” porque se dizia na época, que estava em todos os lugares. Era extremamente comunicativo.

O terceiro arcebispo foi D. Carlos Coelho, o qual nomeou padre Arnaldo de volta para direção espiritual do seminário, onde ficou por mais 4 anos; dele guarda a lembrança de ter uma personalidade muito sensata, equilibrada, discreta, de um homem simples, com profundo senso eclesial e com uma firme opção pela Renovação Litúrgica. Um episódio pontual marca bem sua opção pelos pobres: certa vez padre Arnaldo foi chamado por ele para uma conversa importante sobre o seminário, durante a qual, uma velhinha bem pobre bateu à porta do palácio. A irmã do arcebispo foi abrir e D. Carlos interrompeu seu colóquio, mandou a senhora sentar junto deles, conversou demoradamente com ela e atendeu seu pedido.

O quarto arcebispo foi D. Helder Pessoa Camara. Padre Arnaldo foi seu pró vigário geral, assessorando D. José Lamartine. Sobre o Dom, não há mais o que dizer, e tudo o que se disser é pouco. Com ele foi um relacionamento de muita confiança e seriedade. Lembra-se padre Arnaldo de uma pregação que estava fazendo, na presença dele e de muitos outros padres da arquidiocese. O padre disse: “a tristeza é que nós o admiramos, mas não o imitamos...”

Pergunto sobre o próximo que há de vir, ele se nega a fazer uma previsão. Pergunto sobre o futuro da nossa Igreja. Seus olhos brilham e ele profetiza: acho que deveríamos transformar tudo isso, reconstruir ao lado dos pobres, mudar esta estrutura pesada e cansada, estar junto do povo....

Padre Arnaldo lê diariamente pelo menos dois livros, os jornais locais e se mantêm informado sobre a movimentação da Igreja no Brasil e no Vaticano, além de acompanhar as notícias daqui e do mundo. Talvez tenha descoberto um dos caminhos que levam à fonte da juventude, talvez esteja perto demais da Fonte.

Parabéns, caro amigo!

 

Assuero Gomes


 

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