quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Quando fevereiro chegar...


 
 
 
 
 
Quando fevereiro chegar...

 

Quando fevereiro chegar, os flamboyants e as acácias ainda estarão em festa, vestidas de natal. Os cavalinhos azuis estarão nos carrosséis dos nossos corações, os blocos derramarão saudades pelas ladeiras infinitas. Os pombos estarão voando com seus lenços brancos.

Quantas bandeiras serão carregadas e voarão aos ventos de fevereiro? Uma misteriosa alegria contagiante de um povo sofrido perspassará o coração de muitos e brincarão suas brincadeiras fugidias, no delírio de quem já vive 361 quartas-feiras de cinzas no ano.

A figura de um profeta alegre e amoroso pairará sobre os fevereiros de nossas vidas, sobre os carnavais de nossas vidas, sobre as cinzas de nossas vidas, mostrando sempre um caminho de alegria preparado por um Deus compassivo e misericordioso.

A presença viva de um cristão ressuscitado, em um tempo grávido de centenários em flor. Um fevereiro, um jovem pastor quase secular, uma saudade infinita banhada numa presença infinita, quando fevereiro chegar...

Serão padres, serão leigos, serão ricos, serão pobres, homens, mulheres, crianças, são e doentes, mendigos, será uma só agremiação do amor de Deus, que desfilará nesta avenida chamada vida, com suas carências e alegrias, seus desencantos e amores, suas esperanças e sua poesia. São blocos de passistas sem fronteiras, sem medo, sem remorso, sem culpa. São caboclinhos desencarnados de sua vida miserável que invocam o som das florestas perdidas, são negros quilombolas e seus batuques silenciosos, que acordam a consciência de uma nação. Sobre eles derrama, o seu pastor, uma chuva de bênçãos, de consolo, de acalanto, como uma cantiga de ninar, como uma brisa do mar.

Vem! Fevereiro, traze-nos logo teu sopro, teu vento, teu espírito, como nos trouxeste há 99 anos. Cá estamos carentes de um pouco de luz, de afeto e de alegria. Traze logo uma igreja peregrina e pobre, que se admire com o brilho do caboclo-de-lança e abomine o brilho do ouro das tiaras e das pedras preciosas incrustadas nas mitras e nos báculos.

Quando fevereiro chegar, quero ter uma visão, destas que se tem nos desertos sedentos. Quero ver o sacerdote-pastor-profeta, vestindo sua batina creme, abençoando seu povo na porta da igrejinha das Fronteiras, com um sorriso largo e um abraço do tamanho do mundo.

Quando fevereiro chegar...

Assuero Gomes

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